Retiro Ecologia e Espiritualidade. Dia 19

12 – Espiritualidade inaciana: espiritualidade ecológica

“O universo é feito de histórias, não de átomos”
(Muriel Rukenser)

“Pode parecer estranho que a figura de Inácio de Loyola tenha algo a nos dizer sobre ecologia. A verdade é que a espiritualidade inaciana é muito mais integradora do que imaginamos. Inácio viveu e solidificou sua experiência de Deus de maneira unitiva, racional e afetiva. Sua relação com Deus e com a natureza se manifesta numa aplicação dos sentidos, da afetividade, como o olhar, o apalpar, o cheirar e o sentir, ajudando a interiorizar a sua experiência espiritual. Pensar, viver e sentir os frutos espirituais só é possível numa visão de amor presente em todas as coisas. Trata-se de uma relação de amor em que não se pode separar o divino, o humano e o cósmico, pois Deus está presente em tudo e em todos”.
(Pe. Josafá Siqueira sj)

A experiência inaciana dos Exercícios desperta uma “atitude contemplativa” que nos impulsiona a buscar e encontrar Deus em todas as coisas da natureza e da vida humana e histórica.
A recomendação inaciana “e sejam frequentemente exortados a procurar em todas as coisas a Deus nosso Senhor… amando-O em todas as coisas, e amando a todas n’Ele” (Const. 288) não significa frieza e distância da Criação, senão sua máxima defesa e cuidado.
Para amar bem a todos e a tudo é preciso, antes, amar Alguém sobre todas as coisas. Pois bem, essa possibilidade é para S. Inácio fruto e manifestação da consolação divina.
Nesse sentido, a espiritualidade inaciana vai além de uma determinada experiência religiosa; ela se expressa como uma “atitude amorosa” para com todas as criaturas.
O Universo inteiro é um imenso altar, no qual podemos contemplar a presença do Criador.
A espiritualidade inaciana reconhece uma imanência de Deus no cosmos; há uma divinização do universo, enquanto Deus está presente nele. Deus está em tudo, tudo está em Deus, tudo se reflete dentro de Deus. O Universo não é indiferente a Deus, pois está no Seu coração e pertence ao Reino da Trindade.
A Criação, como dom recebido de Deus, situa-se no plano de uma “sacralidade” fundamental
O sagrado invade todos os aspectos da vida e da criação. É uma experiência de interioridade, de intuição, de contemplação, de um fazer contemplativo, da presença escondida do divino, da sacralidade da natureza, do sentido da comunhão, da totalidade e solidariedade com todas as manifestações de vida e com todos os seres.
S. Inácio considera Deus “habitando” nas criaturas, dando-lhes o ser, às plantas dando-lhes o crescimento, aos animais a sensação, aos seres humanos o entendimento (EE. 235)
Presença operativa e de amor, porque “Deus é amor”. E sendo amor, irradia vida, graça, dom…
Como tudo está ligado umbilicalmente a Deus, é a partir de Deus que encontramos o todo. Deus penetra no coração de cada coisa e cada coisa se encontra em Deus.
A experiência dos Exercícios nos ajuda a descobrir esse Deus que está presente em todas as coisas, mas oculto sob mil sinais. O Universo é um grande sacramento; a Matéria é sagrada; a Natureza é espiritual, porque é Templo de Deus.
“Buscamos na história da Criação uma maneira de experimentar o mundo capaz de nos abrir as portas do transcendente” (Joseph Campbell).
A espiritualidade inaciana, na perspectiva ecológica, visa, portanto, recuperar a sacralidade fundamental de todas as criaturas. O horizonte da Criação, revelado pelo “Princípio e Fundamento” e pela “Contemplação para alcançar amor” suscita no exercitante uma atitude sabática de adoração.
De fato, na perspectiva bíblica, o ponto alto da Criação é o Sábado a partir do qual se entende a relação e a comunhão do ser humano com a natureza, numa atitude de permanente louvor (espanto, admiração diante da beleza da Criação e da presença divina que a conduz à plenitude).
O Princípio e Fundamento expressa, portanto, uma atitude espiritual ecológica.
Na Contemplação para alcançar amor, S. Inácio leva o exercitante a perceber a íntima presença de Deus na Criação. E dela decorre uma atitude de respeito, harmonia e sintonia.
As coisas, o mundo, a natureza, os outros, eu… existimos em Deus, não isoladamente, não paralelamente, não superposto… “Nossa vida está escondida com Cristo em Deus”, diz S. Paulo.
Em Deus como realidade primeira e primordial, como “arché” (princípio) de tudo o que existe.
Perceber isto pertence à dimensão da graça e da fé, mas não percebê-lo acarreta consequências nefastas.
É a partir desse pano de fundo que podemos compreender o significado da expressão “as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o ser humano…” (EE. 23).
A espiritualidade inaciana, na perspectiva ecológica, se opõe ao utilitarismo da natureza.
A natureza não é vista, unicamente, como sendo uma mediação criada só para servir ao homem, mas também como lugar e meio para “louvar, reverenciar e servir o Criador”.
O ser humano, ao se sentir em comunhão com a natureza, espelha-se no ato criativo de Deus, conservando-lhe a vida e colocando-a a serviço dos demais.
Sendo “criado e criativo”, o ser humano denuncia a destruição e morte da vida da natureza e dos seus irmãos, e anuncia um Reino de vida e de harmonia entre todas as criaturas.
Ele acolhe o dom da presença divina através de uma resposta oblativa e contemplativa e nunca como déspota que usa e abusa das criaturas.
É esta a “experiência mística” que brota da relação com a natureza; mergulha-se diante da beleza da natureza até o coração do cosmos, sentindo pulsar aí uma vida maior.
Nesse sentido, a espiritualidade inaciana é aquela que nos ajuda a superar as dicotomias na busca da unidade e da totalidade: ciência e mística, mundo físico e espiritual, corpo e espírito, céu e terra… tudo se encontra em profunda harmonia e em íntima intercomunicação.
Tal experiência nos propicia uma fecunda mística cósmico-ecológica.
Sentimo-nos conduzidos pela força do Espírito que alimenta as energias do universo e a nossa própria energia vital e espiritual.
A espiritualidade inaciana não é, portanto, “pensar” Deus, mas “sentir” Deus como o Elo que perpassa todos os seres, divinizando-os, interligando-os, favorecendo a relação, a vida, a comunhão… rumo a horizontes cada vez mais abertos.
Ecologicamente falando, a espiritualidade inaciana desperta em nós um duplo olhar:
. voltando-nos à origem de tudo, podemos encontrar a Fonte criadora, de onde brota o louvor, o canto de admiração e o assombro pela beleza e riqueza das obras criadas;
. voltando o olhar para nós mesmos, sentimo-nos mergulhados numa gigantesca comunhão com todo o universo.

Comunhão que nasce de uma experiência mística do encontro com o Senhor da Criação, por meio das coisas criadas, revestidas da sacralidade transcendente.
Aqui já não cabe mais nenhuma atitude de dominação, de exploração, de depredação.
O cuidado e a beleza do universo impõem-se ao desejo consumista desenfreado, desencadeando um novo paradigma de relacionamento com o conjunto da Criação.

Textos bíblicos: Col 1,15-20; Is 43,16-21; Rom 8,19-23; Is 14,1-5; Sl 104(103); Sl 65

Na oração:
“Põe o ouvido no chão e interpreta os rumores em volta. Predominam passos inquietos e agitados,
passos medrosos na sombra, passos de amargura
e revolta… Nem começaram os primeiros passos de esperança. Cola mais os ouvidos à terra.
Prende a respiração. Solta as antenas interiores.
O Mestre anda circulando”
(D. Helder Câmara).


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