Princípio e Fundamento
16 de março de 2020

Princípio e Fundamento

“O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor…” (EE. 23).

 

Atitude interior

Colocar-se diante da verdadeira imagem de Deus em liberdade e em atitude de adoração.

– diante de que imagem de Deus eu me situo?

– que imagem tenho de Deus?

 

A verdadeira imagem de Deus é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. É o Abba, o absoluto de Amor para a pessoa que se sente diante de um Deus “sempre maior”. Deus é o “coração de nosso coração”, mais íntimo que o nosso interior… Não se trata de aprender nenhuma ideia nova sobre Deus, mas de “saborear internamente” as de sempre, tirar os impedimentos, permitir que Ele “chame e entre”.

Trata-se de recuperar o sentido de dependência: Deus é Senhor do ser e da vida de cada pessoa. A autêntica vocação pessoal do ser humano é o louvor e o serviço. Por outra parte, a Glória de Deus é a verdadeira alegria do ser humano. Deus devolve ao ser humano a gloria que dele recebe como alegria e plenitude. Uma fórmula moderna da Aliança poderia ser essa: “Eu serei teu Deus e tu serás minha glória”.

 

A finalidade do ser humano: o louvor, a reverência e o serviço.

* O ser humano é louvor:

A vocação do ser humano é louvar a Deus. “O homem vivente é a glória de Deus”. Simplesmente “estar aí”, já reflete a Sua grandeza. Mas, em algum momento, devo tomar consciência de que só há uma coisa importante: louvar a Deus. Viver para louvar.

Que é o louvor? Louvar é ponderar a grandeza, a beleza e a majestade de Deus. É expressar com gritos e aclamações, a admiração pelo Deus que fez tantos prodígios em nosso favor. O louvor faz com que a pessoa se esqueça de si mesma e tenha os olhos somente fixos em Deus. O louvor deve ser suplicado e implorado Àquele que tem as chaves do coração e dos lábios: o Espírito Santo.  Nenhum louvor é possível se Ele não o inspira e alimenta com seu sopro divino. Este louvor, que toma momentos de nossa vida, é sinal daquilo que brota do mais profundo do ser da pessoa, criada para o “louvor de sua glória”.

* O ser humano é reverência:

É uma atitude diferente de situar-se diante das pessoas, da natureza… e diante de Deus, Mistério da existência; atitude de apreço, cordialidade, respeito, agradecimento… é uma atitude ecológica.

* O ser humano é serviço: “Ser para os outros”, como Jesus.

 

A consideração do PF inaciano nos ajuda a descobrir a necessidade de:

– saber quê quero fazer com minha vida;

– de ter meu projeto de vida, de dar sentido à minha vida;

– de estar orientado na vida.

 

Há um projeto pelo qual vale a pena viver e inclusive dar a vida; viver este projeto é viver a partir do Deus de Jesus; aproximar-se desse projeto é aproximar-se do Deus de Jesus.

 

Não é o muito saber que sacia e satisfaz o interior, mas o SENTIR e SABOREAR as coisas internamente” (EE. 2).

 

Por quê a oração tem que ser sempre enfadonha, maçante, pouco divertida, insípida, neutra…? A Escritura, pelo contrário, diz: “Esta Palavra permaneça em tua boca, em teu coração”, “Provai e vede…”, “Abre a boca, eu a transbordarei”, “Comei e bebei de graça”.

 

Conhecer a Deus não é questão de SABER, mas uma EXPERIÊNCIA PESSOAL. “Sentir e saborear”: Deus fala, se comunica a nós precisamente em nossa realidade corporal, afetiva, inteligente, e não no imaginário.

 

Modo de proceder

Ainda que o “sabor” da Palavra seja sempre um DOM de Deus, eu posso, de minha parte, facilitar uma recepção mais profunda da Palavra e, por meio dela, do mistério de Deus. Para isso, tal como saborear um prato fino ou um vinho de qualidade:

– toma-se pouco a pouco, em pequenas quantidades: uma palavra, um verbo, uma atitude…

– e dando tempo: para saborear, gostar e descobrir todos os aspectos, para refletir sobre suas implicações, para permitir que a Palavra exale seu perfume; permanecer aí até que esta Palavra vá descendo dentro de mim, ressoe e seja recebida e compreendida de verdade.

 

É importante que:

* eu me disponha a recebê-la de verdade evitando as divagações, o “borboletear” (passar, sem parar, de frase em frase sem dar-lhes tempo para que “falem”);

* não buscar conhecimentos novos ou ver muitas coisas, mas permanecer aí, o tempo necessário para “sentir e saborear internamente”;

* não fazer esforço para sentir, para que se produza “gosto”, nem crer que deveria sentir “coisas extraordinárias”.

 

Se sinto “sabor”:

* acolhê-lo e permanecer nesta Palavra, enquanto se recolhe frutos…

* sem procurar interpretá-la imediatamente (“se esta Palavra me diz algo, significa que devo fazer isto”).

* continuar buscando o Senhor por Ele mesmo e não pelo “sabor”;

* o “sabor” não é um fim em si mesmo; é uma indicação. O que “sinto e gosto” não é Deus, mas uma indicação, um sinal de que Sua Palavra trabalha, me toca. Ao interiorizar tal passagem, ao assimilá-la, a Palavra me alimenta, “se encarna” e me ensina.

 

Algumas manifestações de “sabor interior”

O “sabor interior” pode assumir diversas formas, segundo as pessoas ou os momentos da vida; fortes ou discretas, saltam sempre à vista:

* um “sabor inicial”: ao preparar a oração ou escutando o Evangelho durante a Missa, produz-se um espertar ou uma resistência; “eu gostaria de rezar esta passagem…”

* sentimento de maravilha, admiração, compreensão interior;

* sentimento de identificação, de cumplicidade com tal passagem, personagem, palavra… que revelam um aspecto em mim ou traço de Deus, um chamado, um desejo que carrego dentro;

* sentimento de presença de Deus ou de presença simples a Deus, que se manifesta como paz, descanso, com uma fé tranquila ou com a experiência de Verdade, de Palavra Viva;

* Palavra que me envolve, me move, me fala mais que qualquer explicação;

* eco dinamizante de uma Palavra que reacende o desejo de viver, de servir, de imitar…

* há também formas mais dolorosas, por exemplo, quando medito sobre realidades difíceis ou sofrimentos da vida de Cristo ou da minha:

– sentimento de compaixão, de contrição verdadeiras para com Deus ou os demais;

– sofrimento, lágrimas à vista de uma ferida ou de um episódio de minha história, mas sem amargura, com uma certa paz;

– secura, sede, dor por uma impermeabilidade: neste caso conviria permanecer numa fidelidade tranquila; na incapacidade de “saborear” por mim mesmo, fala Deus.

PF: o Deus diante de quem estou é o Deus que me criou e que fez todas as coisas porque me ama.

 

Atitude interior.

* Nesta semana devo descobrir que sou livre, que tenho liberdade, unicamente, quando sou tomado completamente pelo Amor de Deus, já que os desejos de meu coração, e todas as minhas ações, afetos, pensamentos e decisões são retamente encaminhados a Deus, meu Pai e a seu “serviço e louvor”.

* Deus Pai nos elegeu e predestinou, desde a origem da Criação, à identificação com seu Filho.

 

Não é um Deus distante, senão Alguém que nos ama e se aproxima de nossa vida, em nosso mesmo ser de homens e mulheres, na comunhão com nosso ser pessoal. Ele chama a nossa liberdade a configurar-se com a imagem de seu Filho Jesus, vocação original do ser homem-mulher. O ser humano está “finalizado” em Cristo, já que o fim dele é a identificação real/existencial com a imagem de Cristo. N’Ele, o ser humano recupera a imagem perdida de Deus.

Que é a filiação de Jesus? É sua comunhão de amor com o Pai, que se traduz na atitude de obediência amorosa. O mistério de sua vida filial é o acatamento da Vontade do Pai.

Em sua atitude de obediência filial, o ser humano encontra a imagem dinâmica da obediência amorosa, e o verdadeiro lugar da “reverência e serviço”. O projeto de Deus sobre o ser humano é a graça da predestinação para o Filho e no Filho. Trata-se, pois, de colocar-se diante da presença surpreendente do Amor do Pai. Não se pode “louvar e servir a Deus” a não ser sendo livres, disponíveis. Ante sua presença Deus “cresce”, mas o ser humano também cresce; por isso posso desejar fazer tudo “para sua maior glória”.

Oração preparatória: “pedir graça a Deus Nosso Senhor, para que todas as minhas intenções, ações e operações (decisões) se ordenem puramente ao serviço e louvor de sua divina majestade”. Enorme petição, mas, este é o destino que Deus Criador deu à nossa vida. Esta oração preparatória é um ato fundamental. Da atitude que dela nasce, depende a oração bem feita. O essencial, tanto na oração intensiva como na oração ao longo da jornada, é esta adesão de meu querer a Deus, nesta orientação do desejo que se encontra e comunga com a do Espírito em mim.

 

“As outras coisas sobre a face da terra são criadas…” (EE. 23)

 

* Três atitudes diante das coisas:

– “tanto quanto”: as coisas carecem de um destino independente; estão em função do fim do ser humano; são necessárias e relativas.

– “indiferença”: o Deus sempre Maior é uma exigência radical de liberdade. Mas a “indiferença” possui sentido olhando a Cristo: a disponibilidade é o traço caracterizante do Filho, é a disponibilidade filial à Vontade salvífica do Pai. A indiferença é o modo existencial de ser.

– “magis inaciano”: sempre há um “mais” de fé e seguimento. O “mais” de Deus sobre o ser humano consiste na aceitação de que sempre há um “mais” de amor por parte do “Deus sempre maior” com relação ao ser humano. Consiste em aceitar a Deus em sua condição de Deus; e é ao mesmo tempo um salto na fé, como Abraão. Somos “senhores” diante das coisas; nunca escravos. Tudo o que há no mundo está a nosso serviço: riquezas, bens de consumo e de cultura, carreira, profissão, projetos, saúde, poder, … São meios materiais… para realizar nossa “definição”.

 

Devemos chegar a ser livres diante de todos esses meios. Portanto:

– não os apreciemos ou desprezemos enquanto não saibamos se nos ajudam ou atrapalham o “maior serviço e louvor”. Este é o jogo do tanto quanto;

– o importante não é ter mais ou menos dinheiro, prestígio, saúde… senão realizar-se, ter uma vida plena, ser “outro Cristo”, um cristã… Ir pela vida, “somente desejando e escolhendo o que mais nos conduz ao fim para que fomos criados”.

– quanto mais livre é uma pessoa por dentro, mais humana… e é mais de Deus, como Jesus;

– quanto mais escravizada às coisas, mais vai perdendo humanidade… até se perder. Este é o homem forte, libertado da escravidão de qualquer consumismo das coisas… libertado do medo à pobreza, ao fracasso, à desonra… à morte.

 

Porta de entrada dos E.E., o Princípio e Fundamento nos ajuda a criar a atitude fundamental para se iniciar o processo: total disponibilidade para Deus. O PF revela o dinamismo da História e da Criação… há uma força que impulsiona, que aponta para a plenitude, para um horizonte.

 

CRIAÇÃO: transbordamento do Amor de Deus – Tudo vem de Deus e tudo volta para Deus; tudo é Dom; tudo tem sentido; toda a realidade está envolvida pelo Amor dinâmico e criativo de Deus; Deus se faz presente na Criação (presença amorosa). Deus trabalha na Criação, aperfeiçoando-a, levando-a à plenitude… Mundo: “lugar” do encontro com Deus (visão positiva do mundo: nele encontramos as pegadas de Deus; “Ver Deus em tudo e tudo em Deus”). Captar Deus é senti-lo em todas as dimensões da vida, não apenas nas situações privilegiadas como na oração. Deus vem misturado com toda a realidade. A chave da mística é procurar VER o que está por trás de cada coisa, o que a constitui e sustenta. Para quem faz a experiência de Deus, o mundo é uma grande mensagem.

“É necessário considerar pacificamente nas criaturas a ação divina, e como essa ação é verdadeiramente de Deus. É necessário tudo conduzir a Deus, todo ser e toda ação. E é preciso considerar como todas as coisas estão em Deus e agem n’Ele. Nas próprias criaturas é necessário sentir a força de Deus, pela qual Ele pode se fazer compreender, contemplar, amar e adorar pela criatura. Um coração puro contempla Deus nos sinais e o espelha nas criaturas. Assim sentiremos o poder de Deus, sua presença, sua essência e mesmo sua ação”. (P. Nadal).

Não podemos esquecer a perspectiva social dos bens da Criação: somos chamados à partilha.

 

SER HUMANO: “é criado para… criação contínua, atual… original, sagrado, dotado de riquezas…

– define-se por sua ORIGEM e por seu FIM (vem de Deus e volta para Deus);

– “é criado” e é criativo (participa do dinamismo criativo de Deus);

– está em movimento (processo contínuo de crescimento e amadurecimento);

– cada um de nós é colocado com carinho por Deus neste movimento para a plenitude;

– ao mesmo tempo que ele é criatura de Deus, ele é também co-criador com Deus está em suas mãos fazer seu próprio projeto de vida, criar e transformar as estruturas de relação com a natureza e com os outros homens;

– Deus descansa de sua atividade criadora, apoiando-se nas mãos, na inteligência e no coração do homem, a quem seu Criador considera capaz de continuar a obra por Ele começada.

 

Deus, em seu AMOR gratuito, vem ao encontro do ser humano e o introduz no movimento de Sua própria Vida. Devemos nos situar na História da Salvação. Ter um olhar voltado para a plenitude, mas com os pés no chão, assumindo o presente, “trabalhando” com Deus na mesma direção (colaborador).

Ao se sentir parte do grande movimento da Criação, brota na pessoa um desejo de louvar (reconhecer o valor das coisas; assombro à vista do dom da Criação; maravilhar-se...), reverenciar (acolher e apreender o valor de cada coisa; reconhecer-se criatura diante do Criador) e servir (colaboração, intimidade…)

Não se contentar com um serviço qualquer, mas o maior serviço de Deus; colocar todo o entusiasmo, toda a energia e criatividade nesse serviço.

O lugar do “louvor, reverência e serviço” é o mundo; é no coração do mundo que somos chamados a ocupar o nosso lugar:

– atenção àquilo que fazemos (para quê? para quem?);

– louvar-reverenciar-servir a Deus naquilo que fazemos (valorizar o que fazemos); com que intenção estamos fazendo?

– onde está seu “coração”? O que você está fazendo “tem coração? tem sentido?

– qual é o “senhor” que move seu coração?

 

PF: uma vista arquitetônica que considera todas as coisas a partir de Deus, em sua relação à fonte (criatura) e em sua finalidade (serviço e louvor). Nesse sentido tudo é mediação; tudo é relativo; só Deus é o Absoluto. “Por isso é necessário fazer-nos indiferentes”: não é apatia, insensibilidade, passividade; é ato de liberdade para amar melhor; liberdade como processo; colocar cada coisa no seu lugar a partir da soberania de Deus; ser livre para as “preferências de Deus”; disposição para cooperar com Deus. O nível da “indiferença inaciana” é o da preferência: deve-se preferir, acima de tudo, aquilo mesmo que vai aos fazendo mais livres para o serviço de Deus e dos irmãos, sob a inspiração do Evangelho. Requer uma “distância afetiva diante das coisas para eleger bem”.

O ser humano “não-indiferente” é alienado; o seu autêntico “eu” não pode tomar decisões a partir de si mesmo. Tudo deve estar ordenado para o fim último, ou seja, relativizar (pôr em relação com esse fim) todas as coisas criadas. A aprendizagem da indiferença, enquanto faz a pessoa desapegar-se progressivamente das coisas, leva-a a apegar-se crescentemente a Deus e a experimentar Suas preferências, intuindo qual o caminho do Espírito Santo, que se revelou em Jesus Cristo.

 

“… não queiramos mais saúde que doença…”

 

– há em nós muitos desejos irresistíveis, impulsos naturais para a saúde, o apreço, o bem-estar… quando absolutizados nos impedem preferir o que Deus prefere.

 

“… desejando e escolhendo o que mais…”

 

– Magis: – expressa uma dimensão evangélica própria do seguimento de Cristo; é-nos exigido o maior amor;

– toda pessoa traz dentro de si a necessidade de “ser mais”, de crescer até atingir a vida plena;

– o “magis” impede a acomodação, nos põe em movimento, nos leva à busca da excelência (desenvolver ao máximo os dons pessoais).

 

PF:

– revela o dinamismo da História e da Criação e desperta nosso dinamismo interior, nossas energias adormecidas…

– o ser humano possui dentro de si uma força que o arrasta para algo maior que ele… não se limita ao próprio mundo; tem um horizonte que atrai… quer ser pleno, feliz, realizado (trazemos dentro de nós uma aspiração de plenitude…

– carregamos motivações profundas que nos movem e que regem nossas vidas (energia vital);

– temos sonhos, projetos, desejos… que levam a ultrapassar-nos, fazendo-nos peregrinos, impedindo a acomodação;

– no uso de sua liberdade o ser humano tem a vida nas próprias mãos e é capaz de construir o “novo”;

– busca dar uma direção à própria vida; toma decisões a partir da vivência de valores, critérios.

 

Concluindo:

O PF nos proporciona um olhar de fé sobre as coisas, os acontecimentos, as pessoas… sobre nós mesmos;

– plenifica e dá sentido a tudo que fazemos… ilumina nossos gestos, atitudes, missão;

– dá um alcance universal às nossas opções, plenifica nossas decisões… elas tem uma repercussão;

– desperta dinamismos, capacidades, intuições, criatividade… dá um “toque” novo na rotina;

– mobiliza todo o nosso ser, nossas energias… numa direção; aponta para o futuro;

– manifesta e revela nossa identidade (sou único, original, sagrado);

– revela o nosso “lugar” na história (“deixar pegadas”); presença eficaz, transformadora, libertadora… no mundo;

– faz-nos colaboradores, co-criadores (“trabalhar com Deus no mesmo projeto”);

– faz-nos perguntar continuamente: de onde venho? para onde vou? o que estou fazendo?;

– desperta, revela e aponta o grande sentido da vida (utopia); faz o melhor de nós vir à tona;

– ajuda a perceber o que é essencial e o que é secundário.

 

 

 “Mostra-me, Senhor, minha verdade!

Que eu me veja, Senhor, com os teus olhos!”