Epístola sobre a morte de Santo Inácio
4 de agosto de 2026

“Epistola de Obitu S. Ignacio” (Epístola sobre a morte de Santo Inácio)

 

Nas primeiras horas do 31 de julho de 1556, começaram a circular rumores em Roma sobre a morte de Inácio de Loyola. As pessoas diziam: o santo morreu. Para descrever e dar a conhecer a morte do fundador da Companhia de Jesus, o secretário Polanco escreveu uma carta intitulada Epistola de Obitu S. Ignacio, datada de 6 de agosto de 1556.

[1]“Esta carta é para fazer saber a Vossa Reverência e a todos os nossos irmãos que estão sob sua obediência como Deus Nosso Senhor se dignou tirar dentre nós e levar para Si o nosso bendito Padre Mestre Inácio, na sexta-feira, 31 de julho, pela manhã, véspera de São Pedro ad Vincula, soltando os que o tinham ligado na carne mortal e colocando-o na liberdade dos seus escolhidos; ouvindo finalmente os desejos deste bem-aventurado servo seu que, embora com grande paciência e fortaleza suportasse sua peregrinação e os trabalhos dela, desejava há muitos anos, muito intensamente, na pátria celestial ver e glorificar o seu Criador e Senhor; cuja divina providência nos deixou até agora, para que com seu exemplo, prudência, autoridade e oração fosse adiante esta obra da nossa mínima Companhia, como por ele mesmo havia sido começada; e agora que as raízes dela parecem estar medianamente fortificadas para crescer e aumentar esta planta, e o fruto dela em tantas partes; levou-o ao céu, para que tanto mais abundante chuva de sua graça nos alcance, quanto mais unido está com o aviso dela e de todo bem”.

[2] Nesta casa e colégios, ainda que não se possa deixar de sentir a amorosa presença de tal Padre, de quem nos achamos privados, é o sentimento doloroso, as lágrimas com devoção, e o encontrá-lo menos com aumento de esperança e alegria espiritual. Parece-nos da parte dele que já era tempo de que seus tão contínuos trabalhos chegassem ao verdadeiro repouso, suas enfermidades à verdadeira saúde, suas lágrimas e contínuo padecer à bem-aventurança e felicidade perpétua. Da nossa parte não somente não pensamos tê-lo perdido, mas agora mais que nunca esperamos ajudar-nos de sua ardentíssima caridade, e que por sua intercessão, a divina misericórdia haja de acrescentar o espírito e número e fundações de nossa Companhia, para o bem universal e de sua Igreja.

[3] E porque Vossa Reverência quererá entender algo do particular no trânsito de nosso Padre (que está em glória), saiba que foi com grande facilidade e que não durou uma hora depois que caímos na conta de que se nos ia. Tínhamos em casa muitos enfermos, e entre eles o Padre Mestre Laynez, e Dom João de Mendonça, e alguns outros graves; e nosso Padre tinha também alguma indisposição, que havia quatro ou cinco dias tivera um pouco de febre; mas duvidava-se se já a tinha ou não; ainda que se sentia muito fraco, como outras vezes.

E assim, na quarta-feira (29 de julho) me chamou e me disse que dissesse ao doutor Torres que tivesse também cuidado dele, como dos outros enfermos, porque não se tendo por nada o seu mal, acudia-se mais a outros que a ele; e assim o fez. E outro grande médico amigo nosso (que se chama Alexandre) também o visitava cada dia.

Na quinta seguinte (30 de julho) me faz chamar, depois das 20 horas e fazendo sair do quarto o enfermeiro, me diz que seria bem que eu fosse a São Pedro e procurasse fazer saber a Sua Santidade, como ele estava muito mal afinal, e sem esperança ou quase sem esperança de vida temporal; e que humildemente suplicava a Sua Santidade lhe desse sua bênção a ele, e ao Mestre Laynez, que também estava em perigo. E que Deus nosso Senhor lhes fizesse graça de levá-los ao céu, que lá rogariam por Sua Santidade, como o faziam na terra cada dia.

Eu repliquei: «Padre, os médicos não entendem que haja perigo nesta enfermidade de Vossa Reverência; e eu para mim espero que Deus nos há de conservar a Vossa Reverência alguns anos para seu serviço. Tanto mal se sente Vossa Reverência com isto?»

Disse-me: «eu estou que não me falta senão expirar» ou uma coisa deste sentido.

Todavia eu mostrava ter esperança de sua mais longa vida (como a tinha), mas que faria o ofício; e perguntei se bastaria ir na sexta seguinte (7 de agosto) porque escrevia naquela tarde para a Espanha, por via de Gênova: que parte o correio na quinta (6 de agosto).

Disse-me: «eu folgaria mais hoje que amanhã; ou quanto mais cedo, folgaria mais; mas fazei como vos parecer; eu me remeto livremente a vós».

[4] Eu, para poder dizer que, segundo os médicos, estava em perigo, se eles o sentissem, pergunto ao principal deles naquela mesma tarde (que era o Mtro. Alexandre – Petrônio –), que me dissesse livremente se estava em perigo nosso Padre, porque me havia dado tal missão para o Papa. Disse-me: «Hoje não vos posso dizer de seu perigo; amanhã vos o direi».

Com isto, e porque o Padre se havia remetido a mim, pareceu-me (procedendo nisso humanamente) esperar até a sexta seguinte (7 de agosto), para ouvir o que diziam os médicos. E naquela mesma noite de quinta-feira (30 de julho) nos achamos a uma hora da noite o Padre doutor Madrid e eu no jantar de nosso Padre, e jantou bem para seu costume e conversou conosco, de maneira que fui dormir sem suspeita nenhuma de perigo desta enfermidade.

Na manhã, ao sair o sol, achamos o Padre in extremis; e assim fui com pressa a São Pedro, e o Papa, mostrando doer-se muito, deu sua bênção e tudo quanto podia dar, amorosamente. E assim, antes de duas horas de sol, estando presentes o P. doutor Madrid e o Mestre Andréas de Frusis, deu a alma a seu Criador e Senhor, sem dificuldade alguma.

[5] E temos ponderado a humildade deste santo velho, que, tendo certeza de seu trânsito (como a mostrou no dia anterior, que não me lembro de tê-lo visto afirmar coisa futura com demonstração de certeza senão esta, e da provisão de Roma, que nos prometeu um ano antes, como depois no mesmo tempo veio), tendo, digo, esta certeza de seu trânsito, nem quis chamar-nos para dar-nos sua bênção, nem nomear sucessor, nem sequer vigário, enquanto se faria eleição, nem fechar as Constituições, nem fazer outra demonstração alguma, que em tal passo costumam alguns servos de Deus.

Mas como ele sentia tão baixamente de si e não queria que em outro senão em Deus nosso Senhor se firmasse a confiança da Companhia, passou ao modo comum deste mundo, e porventura alcançou ele esta graça de Deus, cuja glória só desejava, que não houvesse outros sinais em sua morte; como na vida também foi amigo de esconder os dons secretos de Deus, fora de alguns que para a edificação deviam manifestar-se; e também a divina Sabedoria, que em seus servos às vezes mostra sinal de milagres sensíveis, para que os que têm pouca fé ou pouco entendimento se movam por eles, e às vezes, em lugar destes, mostra graça, para os que têm abertos os olhos com a luz da fé e outros dons espirituais.

Este segundo modo parece ter usado sua Providência na cabeça da Companhia, como o usa nos membros dela por todas as partes, mostrando na comoção das almas e na conversão e fruto espiritual delas, por tão débeis instrumentos, em tantas partes, nos de dentro e nos de fora da Companhia, «quod digitus Dei est hic» (Porque o dedo de Deus está aqui).

[6] Mas tornando ao propósito: passado deste mundo o nosso Padre, para conservar o corpo, pareceu conveniente tirar-lhe o interior e embalsamá-lo de alguma maneira. E ainda nisso houve grande edificação e admiração; pois acharam o estômago e todas as tripas sem coisa alguma dentro, e estreitas; de onde os peritos desta arte secular inferiam as grandes abstinências do tempo passado e a grande constância e fortaleza sua; que em tanta fraqueza tanto trabalhava e com tão alegre e igual semblante. Viu-se também o fígado que tinha três pedras: que referem à mesma abstinência; pela qual o fígado se endureceu. E vem a parecer verdadeiro o que o bom velho Dom Diego Eguía (que está em glória) dizia, que nosso Padre vivia por milagre havia muito tempo; que com tal fígado naturalmente não sei como se podia viver, senão que Deus nosso Senhor, por ser então necessário para a Companhia, suprindo a falta dos órgãos corporais, lhe conservou a vida.

[7] Tivemos seu bendito corpo até o sábado (1º de agosto) depois das vésperas; e foi grande o concurso de devotos e a devoção deles, bem que estivesse no mesmo lugar onde morreu, uns beijando-lhe as mãos, outros os pés, outros tocando as contas em seu corpo; e tivemos trabalho em defender-nos dos que queriam um pedaço de algum barrete, ou vestido, ou lhe tomavam das fitas, ou toucas, ou coisas suas; ainda que não se deu nada disto aos que o pediam, se se permitia sabendo-o. Também se fizeram alguns retratos de pintura e de vulto neste tempo: que em vida nunca ele o permitiu, ainda que muitos o pediam.

[8] Fizemos de novo na capela maior de nossa igreja, na parte onde se diz o evangelho, uma sepultura, a modo de cripta, pequena, onde colocamos seu corpo em uma caixa, depois de ter dito o ofício acostumado; e o cobrimos com uma pedra grande, que se poderá tirar quando for necessário. Ali estará como em depósito até que outro se veja mais conveniente.

[9] O Doutor Olave foi avisar da morte ao Sumo Pontífice, e mostrando Sua Santidade a afeição que tinha à Companhia em todos os estados, ofereceu-se como bom Padre, etc. Do mesmo modo, alguns dos principais cardeais se ofereceram muito à Companhia, e outros diversos amigos. Deus nosso Senhor seja louvado, que Ele é nossa força e esperança. Três dias temos feito dizer todos missa por nosso Padre. Ainda que alguns poderiam ter tido não menos devoção em encomendá-lo a Deus nosso Senhor, todavia se faça o que é razão por todas as partes, assim dos três dias de missas (que nos é necessário sejam todas de «réquiem») como das orações de nossos Irmãos leigos.

[10] Não temos achado arca (baú) nem escritório algum fechado, senão algumas arcas pequenas em que os que o ajudavam tinham alguma roupa para sua pessoa, e algumas Ave-Marias bentas e «Agnus Dei» dos que se iam dispensando.

[11] Nosso Padre deixou desde 1549 até aqui, quando se confirmou a Companhia, ordenadas 12 províncias, e seriam 13 se se contasse a da Etiópia, da qual foi provincial o P. Tibúrcio ou António Quadros. Lá sabem das seis das Índias, Brasil, Portugal, Andaluzia, Castela e Aragão. Cá na Sicília é provincial o mestre Jerônimo. Na Itália «citra Roman», o mestre Laynez. Em Roma com o de Nápoles e Tívoli, não há nomeado provincial, porque isto se governa comodamente pelo Geral. Da França é provincial o mestre Pascásio; de Flandres o mestre Bernardo Oliverio; da Alemanha o Dr. Canísio; e os colégios e casas que vivendo nosso Padre se ordenaram passam de 100. Deus seja louvado que tanto aumento foi servido dar a esta sua mínima Companhia.

[12] O P. Mestre Laynez estava um dia (depois que Deus nosso Senhor nos levou daqui nosso Padre) muito próximo de segui-lo; e assim lhe demos a Extrema-unção no sábado. Depois foi servido Deus nosso Senhor de emprestar-nos aqui, por muito desejo que ele tinha de acabar sua peregrinação; e sem o saber ele, os professos que aqui nos achamos o elegemos por vigário; assim por ser o provincial da Itália, como porque suas tão boas partes de bondade, letras e prudência, junto com ser o primeiro dos que nos restam na Companhia entre os dez que a bula nomeia, nos movia a isso.

Resta rogar a Deus nosso Senhor que a todos dê graça abundante para sentir sempre e cumprir sua santíssima vontade”.

De Roma, 6 de agosto de 1556.

De Vossa Reverência servo em Cristo

Por comissão de nosso Padre Vigário,

João de Polanco

 

Cf. Juan Alfonso de Polanco, “Epistola de Obitu S. Ignatii”, en FN I, 761-772.

(Tradução: P. Odair José Durau, SJ)

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