Vencer-se a si mesmo

Vencer-se a si mesmo (EE 21)

Pe. Claude Viard, SJ

ITAICI – Revista de Espiritualidade Inaciana, no 23, Março de 1996.

 

Trata-se de vencer, o título dos Exercícios o diz claramente: “Exercícios Espirituais para vencer a si mesmo e ordenar a própria vida, sem se determinar por nenhuma afeição desordenada” (EE 21).

Se esquecemos a realidade do “inimigo” e a dimensão simbólica de conflito que ele dá aos Exercícios, a expressão “vencer-se a si mesmo” adquire uma conotação voluntarista e puramente ascética, que seria criticável e até perigosa. Mas ela tem um sentido legítimo: vencer em nós o “inimigo” e aquilo que, em nós, é conivente com ele ou pode expor-nos à sua ação.

 

Vencer o “inimigo”

Vencer o inimigo passa pelas vitórias do exercitante sobre si mesmo. Vitórias a serem alcançadas nos períodos chamados de “desolação”, quando a presença de Deus não é mais sentida. Trata-se, então de viver positivamente a provação em vez de sofrê-la passivamente, não ceder às ciladas da subjetividade, mantendo o tempo previsto para a oração e até um pouquinho mais, “para acostumar-se a resistir ao adversário, e mais ainda a derrotá-lo” (EE 13,2); não mudar nada do que foi decidido no tempo que precedeu à desolação (EE 318), mas reagir vigorosamente contra a mesma desolação (EE 319).

Vencer o “inimigo” é simplesmente “enfrentar sem medo suas tentações, fazendo o diametralmente oposto” (EE 325); ou ainda ousar encarar as zonas obscuras de si mesmo, onde se esconde algum bloqueio, ou então desmascarar as ciladas do segredo, falando das “astúcias e insinuações do inimigo” (EE 326). E sabemos como, às vezes, precisa fazer-se violência para ter a coragem de falar a alguém daquilo que nos perturba.

 

“Dispor-se para Deus”

“Vencer-se a si mesmo” revela seu sentido quando situamos esta expressão no processo espiritual que é o coração dos Exercícios: deixar-se confrontar ou avaliar por Deus, isto é, deixar que Deus seja a medida do amor que lhe temos e da decisão espiritual que traduz este amor. Ora é isto “ordenar a própria vida, sem se determinar por nenhuma afeição desordenada”, que exige “vencer-se a si mesmo”. No momento de ter que “determinar-se”, mesmo entre vários bens, trata-se de desmascarar as ciladas que dão vez ao “inimigo”, como os impulsos da sensibilidade, os limites do ponto de vista individual, a pretensão sempre temível de querer ser autor da própria perfeição.

No entanto, esta vitória, é recebida, por ser da ordem da disposição para Deus, como esclarece a primeira anotação: “chamam-se exercícios espirituais todo modo da pessoa se preparar e dispor para tirar de si todas as afeições desordenadas. E depois de as tirar, buscar e encontrar a vontade divina na disposição de sua vida para a salvação” (EE 1,3-4). “Preparar-se e dispor-se para tirar de si todas as afeições desordenadas”, em outras palavras, “vencer-se a si mesmo”, aparece assim como passagem para a atitude de disponibilidade para Deus: “buscar e encontrar a vontade divina na disposição de sua vida”, vale dizer, deixar-se confrontar ou avaliar por Deus.

A mola impulsora desta caminhada é o desejo de corresponder mais ao desejo de Deus, segundo a perspectiva do “Fundamento”: “desejando e escolhendo somente aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados” (EE 23,7). E é para acolher em si este mais que o exercitante se engaja no combate espiritual, como aparece no momento da oblação do Reino: “Os que quiserem aspirar a mais… agindo contra a sua própria sensualidade e contra o seu amor carnal e mundano, farão oblações de maior estima e valor…” (EE 97). Oblação que só pode ser dada ao exercitante, à condição de que ele se deixe unificar, comprometendo-se com o Cristo pobre, humilhado e humilde, no sentido oposto ao do pecado.

Neste ponto crucial do itinerário, o combate espiritual pode intensificar-se e tomar uma forma decisiva, porque permanece um obstáculo a deixar-se dispor, obstáculo a superar na oração de união com Cristo pobre, humilhado e humilde: “Para que o Criador e Senhor atue mais seguramente na sua criatura, se a pessoa estiver desordenadamente afeiçoada e inclinada a alguma coisa, é muito conveniente mover-se, com todas as suas forças, para chegar ao contrário daquilo a que está mal afeiçoada” (EE 16,1-2). “Com todas as suas forças”: a oração é susceptível de revestir uma certa força, na sua insistência, como diz o mesmo texto: “Insista em orações e outros exercícios espirituais, pedindo a Deus nosso Senhor o contrário…a não ser que a divina Majestade ponha em ordem os desejos, mudando-lhe a primeira afeição” (EE 16,4-5).

Notemos: pedir o contrário não significa decidir de antemão praticar o mais difícil de forma voluntarista. Por isso, Inácio acrescenta: “a menos que a divina Majestade, ordenando seus desejos, mude sua primeira afeição”. Engajar-se, “com todas as forças” no combate a ser travado na oração, na súplica para que eu seja recebido sob a bandeira do Cristo pobre, humilhado e humilde (cf. EE 147; 156, 159), é abrir-se à Deus, na espera de sentir “o que Deus nosso Senhor lhe puser na vontade” (155); é abrir campo a seu próprio desejo, para além das imagens, das quais é prisioneiro. Tal é a vitória sobre si mesmo, recebida de Deus.

 

Engajados no mesmo combate.

No seu processo de crise, o exercitante é ajudado por aquele que lhe dá os exercícios. Testemunha do conflito do exercitante, o orientador deve respeitar a dinâmica. Ele ajuda nos momentos difíceis (EE 7), mas não pode anular os efeitos do conflito, muito menos impedir que aconteça. Por isso, chega a não responder certas perguntas, que não têm a ver com a experiência em curso ou cortar explicações que só reforçariam os álibis do exercitante, suas resistências a deixar vir a tona os verdadeiros desafios.

Nisso, o orientador pode produzir uma certa violência sobre o exercitante, fazendo o papel de quem frustra e não compreende. É o risco a correr, o preço a pagar. Mas ele não o fará com conhecimento de causa, se ele próprio não se fizer violência, para permanecer no seu lugar, para superar suas resistências, sua angústia e seu medo, ou seu desejo de triunfar, de ser bem aceito.

Finalmente, o orientador deve se violentar para submeter-se ao texto que o vincula ao exercitante, o texto dos Exercícios e o texto não escrito mas tecido pela caminhada do exercitante, e do qual o orientador não é autor.

 

Conclusão

A dimensão conflitual marca a experiência dos Exercícios. Indica que estes não são um caminho predeterminado, nem um programa de temas de oração a ser realizado em determinado tempo, são um processo, original para cada exercitante, que se desenvolve com patamares a alcançar, provas a superar, conflitos a resolver. Nesse processo experimentam-se efeitos de violência, identificáveis pelo discernimento. Mas este só é possível se há alguma coisa a “ler”, isto é, se o processo de crise se desencadeou.

Nesta perspectiva situa-se, muito naturalmente, a expressão “vencer-se a si mesmo”, expressão talvez um tanto temível, nas que faz parte do título dos Exercícios.

Para o exercitante em busca de verdade sobre sua vida, “vencer a si mesmo” é vencer a violência do “inimigo”, vencer também as ciladas das suas próprias ilusões, bem como suas resistências, numa palavra, vencer tudo o que violenta a liberdade que ele procura e que Deus quer para ele. É, finalmente, acolher a vitória de Deus que, em Jesus Cristo, superou já a violência primeira do “inimigo da natureza humana”.


%d blogueiros gostam disto: