Retiro Inacianidade. Dia 9

8 – Mística inaciana:

da experiência interior à encarnação na realidade

Encarnação: pensar pouco do ser humano é pensar pouco de Deus”

Uma vez “experimentado”, durante o processo dos Exercícios, o encontro com o Deus vivo, transcendente, totalmente Outro, que a acolhe no seu amor, na sua misericórdia, a pessoa começa a ver os homens e as mulheres no mundo como Deus os vê.

Precisamente por ter-se encontrado com o Deus-Amor, a pessoa torna-se menos alienada, mais “encarnada” na realidade e mais comprometida com os irmãos e irmãs no mundo, sobretudo com os mais pobres, os mais sofridos e marginalizados; é aquela que mais se compromete com a justiça e é a que mais desenvolve uma criatividade eficaz na história, com obras que nos surpreendem.

O ponto de partida é a contemplação do mistério da Encarnação de Jesus Cristo (EE. 101-109).

Desde o 1º preâmbulo, a contemplação da Encarnação está toda ela estruturada e dinamizada pelo olhar.

Com espantosa audácia, S. Inácio nos apresenta um Deus contemplativo que olha e vê; um Deus comprometido com a vida e a salvação do gênero humano; um Deus compassivo que se deixa atingir e comover pela miséria e dor humana. Este foi o olhar de todos os convertidos, de todos os místicos, de todos os apóstolos.

O exercício da contemplação da encarnação consiste em acompanhar o olhar amoroso e compassivo de Deus sobre o mundo, em contemplar Deus que contempla o mundo, em ver a humanidade com os olhos de Deus.

Este olhar torna-se um convite a incorporar-nos à “contemplação” que Deus faz do mundo, que é a base, a alma de toda ação apostólica. Por isso, contemplar o mundo a partir de Deus, será, paradoxalmente, um convite a encarnar-se no mundo com Deus para salvá-lo. “A arte de olhar a humanidade à maneira de Inácio, é reflexo da bondade, benignidade, simpatia de Deus pelo ser humano (Tit 3,5). É daqui também onde brota o reconhecido humanismo como característica da espiritualidade inaciana: uma visão completa e amável do ser humano, de seus problemas e vicissitudes, uma sensibilidade para todo valor humano e um grande interesse em promover o ser humano enquanto tal, consciente de que isso forma parte da Redenção que se iniciou com a vinda do Verbo” (I. Iglesias).

O exercitante, adentrando-se na Humanidade de Cristo, sente brotar em si entranhas de misericórdia, levando-o à entrega e ao compromisso em favor dos perdidos; faz-se colaborador da salvação que Jesus realiza. Esta referência permanente à humanidade de Cristo se converte em critério básico de todo processo espiritual.

Aproximar-se do mistério do Filho é aproximar-se do ser humano, a quem Deus quer salvar: “Façamos redenção…”. Nesse “façamos” o exercitante escuta o chamado para seguir e assumir, com Cristo, a causa do ser humano, pois pelo mistério da encarnação Cristo se uniu a toda humanidade.

O mistério da encarnação é um ato de fé no ser humano e em seu valor, por parte de Deus.

A humanidade pode acolher a Deus em Cristo e iniciar com Ele uma história nova, um caminho novo.

O mundo no qual Deus se encarnou é o “nosso mundo”: o mundo em que vivemos, com suas divisões e injustiças, ódios e mortes… o mundo dos desesperançados e desesperados… Com grande simplicidade, S. Inácio esboça um quadro da confusa complexidade e problematicidade do mundo. O exercitante deve dizer a si mesmo: “eu pertenço a este mundo, é o âmbito de minha existência, estou imerso em sua confusa variedade e em sua problemática, que parece sem saída. Ao enfrentar-me com os altos e baixos da realidade mundial, dos destinos dos povos, dos âmbitos culturais, e ao esforçar-me em participar verdadeiramente neles, vou tomando maior consciência de mim mesmo”.

Sabemos que os Exercícios não são uma “privatização interior”, senão que neles o exercitante passa, por amor pessoal ao Filho de Deus, a formar parte de seu mesmo processo encarnatório até à plena e total solidariedade com a condição humana. Deste modo, “esvaziando-se”, participa ativamente da solidariedade de Deus com os homens, que é o centro da salvação. Ou, se preferimos, penetra na nova solidariedade humana em Cristo, que é a autêntica plenitude do ser humano, sua verdadeira vocação original.

O inaciano não é aquele que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele que, movido por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável. “Pois Deus e o mundo não são adversários, mas diferenças que se amam”.

Textos bíblicos: Heb 2,1-19; Rom 8,1-17; Ef 1,3-14; Gal 6,1-7; 2Cor 5,11-21; 1Jo 1,1-4.

Na oração: Verificar, diante de Deus, se a experiência dos Exercícios desencadeou no seu interior uma sensibilidade social, um espírito solidário e um compromisso com o mundo da exclusã


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