Retiro Inacianidade. Dia 1

1 – Itinerário da inacianidade

Inacianidade”: um “jeito de ser”, um “estilo de vida”

Caminho de revitalização da “identidade inaciana” dos leigos que viveram a experiência dos Exercícios Espirituais.

ou

Modo de proceder” dos leigos, no mundo e na Igreja, a partir da experiência dos Exercícios Espirituais.

1. Fundamentação: Inácio de Loyola, leigo.

Inácio de Loyola era leigo quando iniciou seu processo de conversão em Loyola e começou a reconhecer a existência de diversos espíritos em seu interior.

Era leigo quando viveu a intensa experiência de Manresa (povoado para onde Inácio se desviou quando se dirigia para Barcelona, no início de sua peregrinação a Jerusalém, depois de ter feito a vigília de armas diante da Virgem de Monserrate. Neste povoado, junto ao rio Cardoner, uma gruta de pouca profundidade, serviu a Inácio para suas práticas de oração e penitência).

Era leigo quando experimentou e escreveu os Exercícios Espirituais.

Era leigo quando começou a reunir companheiros junto dele, aos quais lhes foi dando os Exercícios, e assim foi comunicando-lhes um modo específico de ser.

A espiritualidade inaciana, a inacianidade, nasce como um carisma laical, descoberto por um leigo e com uma metodologia – os Exercícios – que foram concebidos a partir desta perspectiva.

Carisma é a maneira de captar e viver o Evangelho de Jesus. A genialidade de Inácio é que seu carisma, seu modo de captar a Jesus, se fez método (nos exercícios), e por isso, pode ser difundido. Esta também é a causa pela qual este carisma só pode ser compreendido em profundidade, depois de ter feito a experiência dos Exercícios.

Somente mais tarde, e depois de muitas experiências, é que S. Inácio e seus companheiros decidem constituir a Companhia de Jesus. Mas a origem do carisma inaciano é laical: em Manresa (1522), Inácio viveu a experiência espiritual mais forte (a mesma que logo se constituiu como método nos Exercícios Espirituais), e só em 1534, em Montmartre (Paris) ele faz os votos religiosos; ou seja, durante mais de dez anos ele viveu sua espiritualidade como leigo.

A Companhia de Jesus dá um modelo que como um “carisma se faz corpo”, mas não o esgota.

O carisma inaciano pode ser vivido – e é vivido – em pessoas e em instituições não jesuítas.

Estas afirmações adquirem força se considerarmos atentamente a história de Inácio. A fonte da espiritualidade inaciana é a experiência de Manresa, justamente depois de sua conversão.

O peregrino penitente-leigo que chega a Manresa, sai convertido num peregrino apóstolo-leigo.

Esses onze meses são dos mais decisivos na vida de Inácio e em sua obra: durante essa estadia é quando tem uma das experiências místicas que mais o marcaram: a do Cardoner. Ele mesmo, assim se expressa:

Uma vez ia, por devoção, a uma igreja que estava mais de uma milha de Manresa. Creio que se chama São Paulo, e o caminho vai junto do rio Cardoner. Indo assim em suas devoções, assentou-se um pouco com o rosto para o rio, o qual ficava bem em baixo. Estando ali assentado, começaram a abrir-se-lhe os olhos do entendimento.

Não tinha visão alguma, mas entendia e penetrava muitas verdades, tanto em assunto de espírito, como de fé e letras. Isto, com uma ilustração tão grande que lhe pareciam coisas novas.

Não se podem declarar os pormenores que então compreendeu, senão dizer que recebeu uma intensa claridade no entendimento. Em todo o decurso de sua vida, até os 62 anos de sua idade, coligindo todas as ajudas recebidas de Deus e tudo o que aprendera por si mesmo, não lhe parece ter alcançado tanto, quanto daquela só vez.

Nisto ficou com o entendimento de tal modo ilustrado, que lhe parecia ser outro homem e ter outro entendimento, diferente do que fora antes” (Aut. 30).

Uma vez que se persuadiu de que não poderia viver e morrer em Terra Santa, como era seu profundo desejo desde sua convalescença, Inácio começa a formação intelectual; ele tem consciência que precisa disso para poder fundamentar e contagiar sua experiência.

Ali a vocação laical, tipicamente sua, começa a manifestar um outro elemento importante: busca de companheiros a quem lhes vai dando os Exercícios e lhes vai comunicando um modo de ser.

2. Exercícios Espirituais: o berço da “inacianidade”

O básico da espiritualidade inaciana é experimentar, sentir, fazer, saborear…

É a experiência – conhecer pelo sentir – que se vive na dinâmica dos Exercícios Espirituais.

Nos Exercícios, “experimentar” é fundamental, determinante.

Três verbos eixos são cruciais no caminho do “experimentar” nos Exercícios:

– “sentir” – deixar que minha sensibilidade vibre da mesma maneira que vibra a de Jesus;

“fazer” – fazer com e como Jesus, no horizonte da vinda do Reino;

“padecer” – consequência lógica de pretender o Reino à maneira de Jesus, frente ao poder deste mundo que o rejeita.

Conclui-se que esta tríplice experiência – sentir, fazer e padecer – pretendida na metodologia dos Exercícios, constituirá a matriz para formar o “inaciano” em alguém. Isso é o que estamos chamando de “inacianidade”.

Os Exercícios Espirituais são um caminho de maturação e de crescimento.

A essência dos Exercícios não é a fixação, mas o “pôr em movimento”; não é a afirmação dogmática-especulativa, mas a pergunta contemplativa; não é catálogo de soluções, mas a familiaridade com métodos de busca; não é o “concordismo” despersonalizador, mas a máxima personalização (e por isso, máxima liberdade) do discernimento; não é uma pastoral de fórmulas acabadas, mas de interrogações abertas em cadeia, com as quais vai sendo levado “até à verdade plena” (Jo 16,13); não é ponto de chegada, mas “partidas” para novos horizontes, para novas fronteiras, deixando-se levar pelo Espírito, que tal como vento “não se sabe de onde vem nem para onde vai” (Jo 3,8).

Para tornar possível este “experimentar”, Inácio – grande conhecedor da pessoa – aproveita dos mecanismos psicológicos que possibilitam a experiência. Tudo é mobilizado para facilitar a imersão total da pessoa na oração, na contemplação…

Esta experiência inicia-se com o Princípio e Fundamento.

O objetivo desta consideração nos Exercícios é, certamente, ganhar a liberdade, ganhar a “indiferença”: “é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas…” (EE. 23).

Indiferença” entendida como liberdade frente a tudo, especialmente frente às grandes sombras da vida: a morte, a enfermidade, o dinheiro, o poder…

Esta liberdade se converterá em experiência fundante e geradora de uma série de atitudes.

S. Inácio, numa das regras pouco conhecida, diz o seguinte em torno à liberdade: “Conserva a liberdade em qualquer lugar, e diante de quem quer que seja, sem fazer acepção de pessoas; tenha sempre liberdade de espírito ante aquilo que tens à frente; e não a percas ante obstáculo algum. Neste ponto não falhes nunca”. (Epp. XII, 678-679).

Portanto, aquele que captou o carisma inaciano será a pessoa livre que não hipoteca sua liberdade por nenhum preço. Grande sinal deste novo Princípio e Fundamento é “sentir a liberdade”.

Obviamente que esta experiência não anda sozinha. Tem outras realidades que a acompanham.

Em seguida, a experiência da Primeira Semana é a do pecador perdoado.

Esta experiência é a que possibilita o diálogo proposto no colóquio de misericórdia: “Que fiz por Cristo? que faço por Cristo? que farei por Cristo?” (EE. 53).

Aqui nos encontramos diante do sentir que se converte num fazer, numa tarefa. Ou seja, a experiência fundamental da primeira semana é a do pecador perdoado a quem o perdão se converte em missão, pois não é apesar de ser pecadores, senão precisamente por isso que a pessoa é convidada a seguir Jesus, para ser posta com Ele, na tarefa de construção do Reino.

A experiência de ser pecador perdoado, é a que matiza e impulsiona todos os traços da espiritualidade inaciana.

Continuando, temos a experiência da contemplação do Reino que nos introduz de cheio na modalidade do fazer. É fazer tudo à maneira de Jesus. E é fazer o Reino também nós. Um fazer que é também “deixar-se fazer”, deixar-se afetar – ser posto, ser eleito – deixar atuar o Espírito (a graça). Com isto inicia-se a 2ª Semana.

A seguir, a contemplação da Encarnação nos vai fazer “sentir” o que sentiu a Trindade, olhando com ela, para logo percebermos sua extrema solidariedade ao formular a frase: “Façamos a redenção do gênero humano” (EE. 107). A contemplação nos convida a isso também.

A contemplação de toda a vida oculta, é um caminho para aprender a sentir e a proceder à maneira de Jesus. O método da contemplação nos convida a ter seus mesmos sentimentos e seu mesmo modo de proceder.

Encontramo-nos, a seguir, com a chamada jornada inaciana (Duas Bandeiras, Binários, Três maneiras de humildade). Esta nos faz experimentar a compreensão mais profunda dos desejos e seu dinamismo.

Primeiro, desejar ter desejos: isto seria o nível do Princípio e Fundamento.

Depois, de uma forma mais simples – talvez no oferecimento do Reino – desejando de todo o coração.

Para, em seguida, aprender que a chave está em desejar “ser postos com o Filho”.

Experimentar este desejo, nos dispõe para a vivência da paixão (terceira semana).

Experimentar a paixão é o convite por excelência à solidariedade como consequência do amor.

Somos convidados a “fazer e padecer”: “que devo eu fazer e padecer por Ele?” (EE. 197).

Finalmente, a ressurreição – quarta semana – é experimentar a esperança e a alegria da nova vida de Jesus: “pedir graça para me alegrar de tanto gozo e alegria de Cristo nosso Senhor” (EE. 221).

É aprender a “fazer esperança” em nós e nos outros, sabendo que é graça a pedir.

Os Exercícios culminam com a contemplação para alcançar amor, que é a grande síntese de tudo.

É experimentar que é o amor que deve reger, e também, que o amor se expressa concretizando-se em ações. Esta contemplação revela a chave da relação com Deus: de amante a amado, de amado a amante (EE. 231).

Em síntese: seguindo a experiência dos Exercícios Espirituais, podemos afirmar que o inaciano é alguém que se formou numa escola fundamental que lhe abre ao “sentir profundo”, ao “fazer como tarefa recebida, como dom”, e a ser capaz de “padecer” por esse Jesus encontrado no sofrimento da humanidade, para vivenciar também sua glória no contexto do Reino.

Esta é a vivência que animou aos primeiros companheiros de Inácio a buscar outros companheiros e fazer organizações a serviço dos mais necessitados; isto se fazia crucial a partir do que tinha sido vivido do encontro nos Exercícios.

Em suma, a experiência dos Exercícios deve estar acompanhada de uma experiência desafiante no humano, no histórico. Muitas vezes os Exercícios perdem seu caráter mordente, provocante, precisamente porque não são acompanhados ou precedidos por uma experiência de solidariedade, pelo menos em momentos sérios e significativos, com a dor da humanidade, com a injustiça e com o querer devolver o rosto humano ao mundo.

Não obstante, esta experiência de contato sério com a dor do mundo – sobretudo para os leigos – não está determinada unicamente por um tempo longo de contato com o sofrimento das maiorias, senão por um encontro significativo com essa realidade; um encontro que pode partir de um acontecimento inesperado ou traumático, uma experiência casual, mas marcante, um diálogo profundo com alguém que compartilhou de perto essa realidade, os meios de comunicação, ou algo similar.

Em definitiva, uma pessoa que fez a experiência dos Exercícios e tem experiência de ter compartilhado de perto com as maiorias necessitadas, poderá ter seguramente, em seu modo de ser e atuar, os traços da espiritualidade inaciana.

Cf. Carlos Rafael Cavarras, La espiritualidad ignaciana es laical

Apuntes sobre “ignacianidade”

S. Inácio dá numerosas indicações práticas para aqueles que fazem os Exercícios Espirituais, mas se cala quando se trata daqueles que fizeram a experiência dos mesmos Exercícios.

No entanto, isto não nos deve estranhar. S. Inácio confia na pessoa “provada pelo fogo dos Exercícios”: ela saberá construir seu itinerário espiritual, sob a ação do Espírito.

Afinal, como se pode falar de espiritualidade inaciana, de um caminho para Deus, sem ter “tempos fortes” de oração pessoal, sem os exames de consciência cotidianos, sem os sacramentos da reconciliação e da Eucaristia, sem viver no dia-a-dia as opções que Jesus viveu, sem sua preferência pelos pobres, sem seu amor pela Igreja?…

É certo que S. Inácio não se preocupa com o que vai ocorrer após o retiro. Não nos diz nada sobre a passagem e o retorno à vida cotidiana depois de um período intenso, agitado pelos espíritos; mas ele confia, sim, na experiência fundante que cada um conseguiu viver.

S. Inácio é muito consciente de que nada será como antes, senão que o exercitante continuará num discernimento orante, numa espiritualidade encarnada.

Porque “ser posto com Cristo”, graças à experiência dos Exercícios Espirituais, significa estar capacitado pelo Espírito para optar como Cristo, na realidade concreta e cotidiana da vida pessoal, social, eclesial…

Para S. Inácio, a fidelidade espiritual se traduz, em primeiro lugar e necessariamente, na fidelidade ao tempo presente, ao “agora”, ao “hoje”, para não fugir nunca da realidade.

Buscar e encontrar a Vontade de Deus”, tanto dentro como fora dos Exercícios, implica uma contínua e permanente escuta e entrega à ação providente de Deus, no “aqui e agora” cotidianos.

Este é o “itinerário inaciano” onde cada um deixa transparecer aqueles “traços” característicos da experiência vivida dos Exercícios, agora encarnados num estilo próprio de viver, na cotidianidade da vida.

3. Os traços característicos da inacianidade

A pessoa inaciana, aquela que vive a inacianidade, manifesta alguns traços típicos no seu modo de viver e de ser.


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