Retiro do Advento

Casa: a dimensão mística do habitar

 

“Habitarei na casa do Senhor” (Sl 23)

“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2)

 

É da nossa condição humana buscar um espaço, um lugar hospitaleiro e acolhedor, o lugar onde nos situamos no mundo e onde podemos ser encontrados.

São muitos os lugares por onde transitamos, mas o mais importante deles é a nossa casa.

A casa é mais do que uma realidade física, feita de quatro paredes, portas, janelas e telhados.

Casa é uma experiência existencial primitiva, ligada ao que há de mais precioso na vida humana, que é a relação afetiva entre aqueles que a habitam e com aqueles que nela são acolhidos.

Casa, espaço do mundo que nós escolhemos, preparamos, organizamos, adornamos e fazemos a moradia a partir da qual contemplamos a Terra e o Céu. Por isso ela é reveladora de nossa identidade. “Dize-me como é tua casa e te direi quem és”. Ela é o espelho mais honesto dos nossos hábitos, o abrigo dos nossos medos, a nossa fotografia. É por este motivo, talvez, que muitos fogem da própria casa: não querem enxergar a si mesmos.

Quando estamos confusos e desorganizados, nossa casa invariavelmente reflete esse estado de espírito sob alguma forma de desleixo ou desordem. Quando nos abrimos à intuição artística e criativa, a casa e o que realizamos nela se tornam um reflexo vivo de nosso interior, com seus élans e sonhos, seus desejos e perplexidades, com seus anseios de ordem, beleza, harmonia, inteireza.

A casa como espaço arquitetônico e as múltiplas atividades que acontecem nela e em torno dela não deixam de ser uma expressão simbólico-sacramental daquilo que somos e do modo como somos no mundo. A casa é uma extensão de seus moradores. Através dela, estes se revelam e se auto-constroem.

A casa nos ajuda a fincar raízes neste mundo e em nós mesmos; ela é lugar de referência e nos fornece orientação; ela anima nossa espera e alimenta o encontro; conserva nossa história, acolhe e guarda na memória as nossas alegrias e as nossas tristezas, as nossas conquistas e os nossos fracassos…

Estar em casa é estar no seu espaço, na sua intimidade, no lugar de plena liberdade e espontaneidade. Ela é o cenário principal do enredo e dos episódios de nossa vida; é o lugar seguro que nos possibilita repouso e revigoramento afetivo, bem-estar e proteção… Casa representa segurança e refúgio das ameaças que vêm de fora; ela nos oferece um espaço estabilizador e nutridor, suscitando vigor e saúde integral. Sem ela facilmente perdemos a calma e o equilíbrio, tornando-nos presas fáceis da agitação, da insatisfação, do medo, do consumismo descontrolado, da impulsividade e da impaciência.

Em meio à dispersão dos múltiplos relacionamentos e das mais variadas demandas que rege a vida atualmente, é de vital importância esse lugar estável de onde podemos partir e para onde podemos voltar ao longo de nossas incessantes e estressantes jornadas.

Negar casa a alguém é negar-lhe o útero que protege e acolhe, é tirar-lhe a segurança necessária para viver, é fazê-lo um errante sem pátria e sem rumo. Perder a casa é se perder a si mesmo.

Todas estas dimensões fazem a casa humana. Ela se apresenta como instância encantadoramente humana e acolhedora de nós mesmos, sendo fonte de auto-conhecimento e crescimento pessoal.

A casa é também a instância configuradora de nossa experiência de fé.

Diante de tantos ruídos e imagens que nos violentam, a casa torna-se o lugar da escuta, do silêncio, da interioridade e da comunhão com o Transcendente, através de mediações simples como uma escuta musical atenta, uma boa leitura ou o exercício diário da oração.

Nesse sentido a casa torna-se Templo do Espírito, pois ela nos ajuda a fazer contato com nossas “moradas interiores”: lugar de intimidade com Deus, espaço de contemplação, ambiente de discernimento e construção de decisões. Nesse sentido, a casa já é antecipação da nossa morada eterna, no Paraíso.

O lugar cotidiano da casa se converte na epifania do divino, no lugar concreto do encontro com Aquele que faz de nossa casa, Sua morada.

Nossas moradas provisórias nos revelam que todos somos peregrinos em busca da morada definitiva; nosso coração anseia pelas moradas eternas: o coração do Pai, onde cabem todos.

 

Textos bíblicos: Mt 7,21-29

 

Na era do consumismo e da aparência, na qual vivemos, a casa passou a atender a determinados padrões estéticos muito mais do que afetivos. O que importa é o que ela tem e não quem mora nela.

O que era espelho da família se transformou em imagem de identificação. E, dessa maneira, passamos a servir a casa, em vez de ela nos servir.

Numa cultura do individualismo como o nosso, a casa se subdivide em vários nichos que abrigam, em separado, pais e filhos. A sala de estar é pouco usada pelo grupo, e a de jantar, menos ainda. A casa não funciona mais como espaço estimulador de quem mora nela. Tornou-se uma pensão onde são evitados conflitos, questionamentos, reflexões… em nome de uma paz de cemitério.

“Alarga o espaço de tua tenda, estende tuas lonas sem temor, alonga tuas cordas, reforça as estacas!” (Is 54,2)

Existe uma crise de moradia muito mais grave que a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente acolhedoras e disponíveis para seus irmãos.

 

Na oração: Seja uma casa sempre aberta: “entrada franca”.

Nada de “cachorros” que atemorizem o visitante: ironia, rudeza, inveja, preconceito…

Nada de longas esperas que desanimam: uns instantes de intensa atenção basta para acolher o outro. Nada de móveis que impeçam a circulação: não imponha seus gostos, suas ideias, seus pontos de vista. Nada de contrato oneroso: “entra-se” e “sai-se” à vontade, sem formalidades…

Casa: lugar do lava-pés, do mandamento novo; lugar da Ressurreição e Pentecostes.

Lugar do encontro com o Senhor; Ele vem. Sua presença causa mudança.

Deixe ressoar a voz do Senhor: “Eu quero, em tua casa, celebrar a Minha Ceia!”.

Como me sinto em minha casa? Preciso abrí-la, arejá-la? Modificá-la? Iluminá-la? É acolhedora? Humanizadora?…


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