Pedir a graça

Pedir a graça

Uma vez preparado o tempo de oração e de ter fixado a imaginação numa “composição vendo o lugar”, pedirei a Deus quê graça desejo receber nesta oração: “pedir a Deus nosso Senhor o que quero e desejo” (EE. 48).
Quê pedir?
“Pedir o que quero e desejo”: não pedir qualquer coisa, mas “ver seus desejos, estar atento ao que você quer, às suas verdadeiras necessidades”, e dizer isso a Ele.
O que quero e desejo: não mendigar mas ser de verdade desde o começo da oração, alguém que sabe o que quer, que tem direito a “querer” algo para sua própria vida; ser alguém que deseja, que tem aspirações. Ao deixar que se expresse esta vontade do coração, peço ao Senhor a graça, porque é uma graça, não um direito nem fruto do meu esforço.
As graças podem ser diversas:
. De acordo com o “mistério sobre o qual medito ou o texto sobre o qual contemplo”: a atitude de um personagem, a cura descrita, ou uma palavra… podem suscitar uma petição a Deus de algo que necessito para viver mais evangelicamente (disponibilidade, luz, paz, conhecê-lo…).
. Também elas vão se clarificando “segundo nossas necessidades atuais, nossos estados de ânimo, nossa etapa espiritual”.
. Algumas vezes elas se referem a nós mesmos, outras vezes mais descentradas, gerais… talvez vão mudando ao longo da oração ou da semana; será interessante observar esta evolução dos desejos.

Por quê pedir?
. Pedir é colocar-se em estado de receber: receber a Palavra, o Espírito, a Luz de Deus, manifestando assim que a oração me põe diante do Outro.
. Estar assim diante de Deus em estado de desejo, é sair de nós mesmos e abandonar-nos à ação do Espírito que ora, fala e atua em nós. Na realidade, não pedimos a graça de Deus movidos por interesses pessoais, senão para “submeter-nos interiormente cada vez mais ao Senhor”, para estar mais a seu serviço e louvor.
. Pedir é um ato de fé no Senhor e isto é um dom; é reconhecer que “tudo vem dele”, e não de nossos atos; é reconhecer que a oração mesma é um dom seu. É crer que Deus quer cumular-nos do melhor e dar-nos seu Espírito.
. Pedir a Deus é aceitar nossa condição de criaturas. É atrever-nos a existir diante d’Ele, como alguém de pé que “quer” e que “deseja”, como Deus mesmo quer da pessoa, livre em seu existir diante d’Ele. Se tenho desejos é porque sou um vivente, uma pessoa especial aos olhos de Deus.
. Pedir me obriga a escolher entre meus desejos, e reconhecer humildemente aquele sobre o qual devo entrar em acordo com Deus. É pôr em ordem meus desejos diante de Deus, descobrir o que verdadeiramente existe em mim, e descentrar-me disso para ir até o Senhor que é sua fonte. Quando peço o que “quero e desejo”, não posso fazer armadilhas, nem comigo, nem com Deus.
. O Espírito fará com que, pouco a pouco, minhas petições vão se evoluindo, fazendo-me descobrir o que verdadeiramente necessito e desejo. Minha petição se aproxima cada vez mais ao desejo de Deus em mim.
. Na Escritura, Jesus mesmo solicita e respeita o desejo daqueles com quem se encontra; Ele mesmo pede às pessoas ou ao Pai. Ele espera que a pessoa se abra para poder atuar nela (“quê queres que eu faça por ti?”; “pede o que quiseres e te será concedido”; “quê quereis?”).
. Quando peço, não o faço para informar a Deus, mas para conformar-me a Seu Desejo. Quando balbucio minhas petições, Ele me faz descobrir e participar naquilo que o Espírito suscita em mim. “Faça-se tua Vontade”.
. Deus estabeleceu conosco uma Aliança, uma relação feita de desejos e petições recíprocas. Conta conosco. E para atuar com Ele, é conveniente experimentar que recebemos tudo d’Ele.
. Como posso dizer que Deus nos escuta se não fazemos a experiência de pedir-lhe algo? Recordemos o fariseu satisfeito de si mesmo e fechado, sob a aparência de ação de graças; só o publicano, esperando tudo de Deus, voltou para casa justificado e escutado.
. Dentro de cada petição se esconde um louvor: é reconhecer que Ele me pode concedê-la. Não pedir nada a Deus é uma maneira de fazer-se “seu igual” (erroneamente, porque Ele pede): vida de autônomo, uma maneira de “não ter nada a ver com Ele em minha vida”; em tudo isso vai se insinuando uma imagem falsa de Deus. A não ser que tenha medo de que Ele me conceda o que peço… Pedir é entrar, como Jesus Cristo, numa relação recíproca dos desejos que se buscam e se escutam. Não desejar nada é perder algo de minha humanidade.

Quando nos Exercícios se diz “pedir o que quero e desejo”, não é uma oração piedosa ou algo que surge no momento. Quer levar o exercitante a um objetivo concreto e sabe que sem a ajuda de Deus é impossível. Sabe o fim e põe os meios: a oração e o exercício correspondente.
Pedir o que se quer e desejar o que se pede.
É relativamente fácil “pedir o que se quer”; no entanto, é decisivo desejar verdadeiramente o que se pede, ou seja, pedir com um ânimo que não seja exitante, instável, oscilante.
O processo dos Exercícios deve favorecer uma crescente identificação entre o “pedir o que quero” e o “desejar o que peço”. Lentamente, o desejo da graça que pedimos nos enrobustece, nos alarga e nos unifica por dentro.
Os Exercícios Espirituais são, portanto, substancialmente um caminho de progressiva unificação, para que o exercitante torne-se intimamente “uno”. Para que isso aconteça, é necessário que o coração vá progressivamente liberando-se da multiplicidade de “afeições desordenadas” e toda a pessoa (inteligência, coração, vontade, memória…) se transforme num único desejo.
Trata-se de uma sabedoria espiritual que diz que a atenção não pode atender a muitas coisas ao mesmo tempo, sob pena de se perder no meio delas e não obter nenhum fruto.
O fruto vem da atenção que se concentra não em muitas coisas, mas no essencial.


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