Oração e Partilha inacianas

“Esse

 incansável perdão”

 

“O perdão configura o ser humano à imagem de Deus”

 

Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido profundo do perdão.

A maioria pensa que é uma forma de anistia do sentimento, esquecimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso; para uns o perdão significa passar por cima de um erro ou violência, deixando o agressor ir embora; para outros, o perdão é até imoral.

De fato, o perdão nunca se encaixa confortavelmente dentro dos padrões naturais do comportamento humano. Ele não nasce espontâneo dentro do coração do ser humano.

O perdão viola as sensibilidades sociais, e sempre o fará. O perdão transgride.

O perdão não é um gesto fácil – o perdão é um gesto… “inumano”, porque toda a nossa impulsividade natural vai em direção contrária a ele.

Representa considerável avanço em relação ao mais primitivo desejo de vingança.

Sabemos que, no nível mais primitivo, o desejo humano não visa o perdão, mas a retaliação.

Perdoar é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitude atrevida e ousada.

O perdão representa a inovação: ele ataca, com todo vigor, aquilo que parece ser uma lei de nossa história. Isso porque a lógica que regula as relações inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhor dos casos, pela lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.

Perdão não é esquecimento do passado, é o risco de um outro futuro que não aquele imposto pelo passado ou pela memória ferida. É convite à imaginação para responder com um gesto inovador e criativo a quem causou dano ou ofensa. É preciso aventurar-se no encontro com o outro.

O perdão “inventa” uma atitude não prescrita e nem prevista em nenhum manual de comportamento.

O verdadeiro sentido da revolução cristã do perdão é ainda bem mais radical: “mais que ausência de ódio no coração do ofendido, o perdão é ação de amor na direção do ofensor” (Artur da Távola)

O cristianismo é tão revolucionário que exige do ser humano não apenas a grandeza de compreender e desculpar o ofensor, mas a capacidade de amá-lo. O perdão é superlativo do amor.

Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amor que reconstrói o passado e que só Deus podia inventá-lo.

Perdoar é ter esperança no ofensor, acreditar em sua humanidade, oculta sob a sua fragilidade.

O ser humano é muito mais que um ato e uma decisão. É reconhecer sua liberdade de ser, de iniciar uma nova possibilidade para sua existência e de reiniciar-se a si mesmo.

No momento do perdão, que é um momento de parto e de libertação, dá-se ao outro o direito de “ser um outro”, não o aprisionando numa única possibilidade de ação e de decisão.

Perdoar é uma atitude de vida que exige redefinição do outro (contemplá-lo sob outro prisma).

É enxergar no outro não o mal que fez, mas sua verdadeira identidade de filho de Deus.

Esse é o traço característico da comunidade cristã.

Por isso, a originalidade do cristianismo está na descoberta da grandeza do ser humano, no exercício da única força capaz de mudar o mundo: o amor real. Não há revolução maior.

O amor não elimina o que já foi feito, nem faz esquecê-lo, mas consegue arrancar a vida de um fatal e inócuo ponto morto. E neste sentido entra em jogo o perdão cristão: ele nos permite recolher os fatos passados que estão “bloqueados” e orientá-los para horizontes muito mais amplos de sentido.

O perdão não tem impacto no que foi, mas no que é e será. É um gesto de responsabilidade para com o presente e o futuro. Um perdão que faz sentido e que enriquece a vida ao invés de empobrecê-la. Se o passado foi estreito, não permite que o presente e o futuro o sejam.

O perdão é a única atitude que pode movimentar as histórias pessoais e coletivas, lançando-as para fora do círculo vicioso do já realizado, para fora da repetição e da mesmice.

O perdão limpa o terreno para o novo; ele nos arranca do imobilismo do passado e nos faz dar um passo a mais. Este “passo a mais” permite-nos sair de nossas memórias feridas, permite-nos viver o presente e caminhar para o futuro. O perdão reconhece na pessoa a sua condição humana, ou seja, o dom de começar de novo, o dom de iniciar algo novo e surpreendente.

Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade fundamental do ser humano.

O perdão é um ato não-humano, parece mesmo ser um ato puramente divino.

Joan Chittester chama o perdão “o mais divino dos atributos divinos”. “Perdoar – ele afirma – é ser como Deus”. Mas este ato divino nos é revelado que ele está ao nosso alcance, porque Deus nos convida a ele.

O perdão é divino porque, para o ser humano, ele é verdadeiramente divino em seus efeitos e em seu próprio processo; ele traz em si algo de divino, que significa efetivo recomeço, como um novo momento inaugural (uma nova criação, segundo a Bíblia).

O perdão é um dom que abre para uma história nova. Ao se fazer oferta, o perdão se propõe abrir um novo caminho; ele evoca uma nova aliança. Por isso, o perdão não é apenas um ato criador, mas “re-criador”, portador de uma nova vida. Restaura o amor e seu mais belo fruto, a comunhão das pessoas.

Os recursos do verdadeiro perdão são infinitos. Eles jamais acabam. O perdão é “alargamento do coração humano”, é movimento, é expansão de si, é des-centramento… e impulso na direção do outro.

O prefixo “per” é o mesmo que encontramos nos verbos per-correr, per-durar, per-fazer…, e leva à plenitude a ação expressa pelo verbo. O perdão é o dom realizando-se no supremo grau de sua gratuidade; é uma atitude de quem não se prende ao que o outro merece e nem se escandaliza com sua miséria. “Devemos perdoar como pecadores e não como justos”.

O perdão não é uma operação do tipo “de vez em quando”. É um estilo de vida. É uma disposição permanente. Na verdade, no nível mais profundo, o “perdão não é algo que a pessoa faz, é algo que a pessoa é”. O perdão precisa ser um gesto repetido muitas vezes até se tornar um “hábito do coração”. O verdadeiro perdão não tem limite (77×7, segundo Jesus).

 

Textos bíblicos: Mt 18,21-19,1


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