Retiro Ser Conduzido – dia 26

15 – Ad Amorem:

santidade agradecida que desperta novo ânimo

Não é saudável amar o silêncio e esquivar o encontro com o outro, desejar o repouso e rejeitar a atividade, buscar a oração e menosprezar o serviço.

Tudo pode ser recebido e integrado como parte da própria vida neste mundo, entrando a fazer parte do caminho de santificação.

Somos chamados a viver a contemplação mesmo no meio da ação,

e santificamo-nos no exercício responsável e generoso da nossa missão”

(Papa Francisco, GE n. 26).

A consideração da “Contemplação para alcançar Amor e ser alcançado pelo Amor” desperta e alimenta uma profunda gratidão diante da experiência vivida nos Exercícios Espirituais; ao mesmo tempo, é ponto de partida que devolve o exercitante à vida cotidiana, com uma visão universal profundamente cristã. Mais do que um último exercício, é um novo modo de orar de quem, agora, sabe “encontrar e amar a Deus em todas as coisas”.

Ad Amorem” é também uma maneira cristificada de ser e de estar no mundo; nossa presença e nossa missão fazem do mundo em que vivemos um lugar transparente, santo e luminoso em Deus. O “Ad Amorem” nos expande e nos lança em direção ao mundo, à humanidade, nos faz mais universais e nos capacita para sermos contemplativos na ação.

Trata-se do dom e da capacidade de perceber, ver, sentir e compreender que tudo o que existe e acontece, existe e acontece a partir de Deus, em Deus, para Deus e com Deus.

O exercitante é tão familiar com Deus que admira a variedade, a riqueza e a multiplicidade do mundo. Ao mesmo tempo é tão familiar com o mundo que sente o Espírito de Deus atuando em tudo, que entra em comunhão com tudo, porque tudo é “diafania” de Deus.

É a disponibilidade total ao Senhor, agora interiorizada e assimilada existencialmente.

Aqui nos encontramos como que no centro do mistério único, que é ao mesmo tempo o mistério do Deus Criador e do Deus Santo, do Deus que “dá a Vida” e que conserva o universo, do Deus de quem tudo procede e para quem tudo retorna; trata-se do mistério do Amor de Deus. Este Amor ativo e primeiro de Deus desperta em nós a gratidão profunda que nos leva a responder com a consagração da nossa própria vida, ao maior serviço e glória de Deus: “Tomai, Senhor, e recebei…”

Esta contemplação é a expressão da “mística do serviço” por puro amor.

Os quatro pontos da Contemplação (EE. 234-237) são níveis de aprofundamento para descobrir a presença amorosa de Deus em tudo e em todos.

Portanto, a pedagogia do Ad Amorem abre nossos olhos para contemplar e buscar Deus em todas as coisas, a viver sempre na sua presença; é estar unido com Deus na ação; é trabalhar com Deus na mesma direção, ou seja, fazer as mesmas obras que Deus está fazendo.

Partindo do dinamismo despertado pelo “Ad Amorem” somos convidados a uma leitura orante de todos os sinais do Amor de Deus manifestados ao longo da nossa história, bem como trazer à nossa memória todos os bens recebidos ao longo deste tempo. Ponderar com muito amor tudo o que o Senhor fez por nós, por meio de muitas pessoas, da nossa história passada e presente. Como Ele nos cumulou de seus próprios bens e, além disso, continua nos cumulando.

Marcados pela experiência dos Exercícios Espirituais, adquirimos a fina percepção de que tudo é dom de Deus, tudo é Graça, tudo é “de graça”, somos “agraciados”, “cheios de graça”…

Criar um clima de ação de graças.

Na consideração do “Ad Amorem”, a memória tem a sua função de “lugar santo” do louvor e da gratidão. Trata-se de uma função vital: ela nos ajuda a tomar consciência dos benefícios recebidos e nos possibilita ter acesso às recordações não neutras, mas aquelas que tem um significado para o presente. “Trazer à memória” para saborear de novo; memória agradecida (buscar nos arquivos do coração). A memória é a presença da eternidade em nós.

Numa pessoa que experimenta que é cumulada de benefícios, as “lembranças”, tanto dolorosas quanto felizes de acontecimentos já vividos, não provocam nem ruptura interior nem sentimentos inúteis. Ela é capaz de tirar proveito de todas as suas vivências e, também, da experiência dos outros; aprende a rever a própria história e lê-la como História de Salvação; resgata referências; cura feridas; reconcilia-se com a vida e consigo mesma, com as próprias riquezas e fraquezas, com o próprio passado.

E esta é uma memória saudável, curativa, santa, porque não é fuga, mas descida às raízes e aos fundamentos da vida; não é uma memória morbosa (doentia), mas inserção, renovação e circulação da seiva própria da santidade; é encontro com as correntes profundas do ser e da vida.

Neste ponto, O Ad Amorem vem ao encontro da experiência autenticamente humana, já que a memória tem nela um papel muito importante: “re-viver” o passado para assumi-lo como parte permanente e insubstituível da própria história.

Só a memória agradecida está em condições de nos ajudar a entender o sentido, a profundidade e a verdade dos acontecimentos. “Traer a la memória” é trazer aos nossos corações eventos passados, para dar-lhes nova vida. Na verdade, só através das profundezas de nosso coração, lembramos do que passou. “O que a memória amou fica eterno” (Adélia Prado).

As lembranças nutrem nosso presente com seu sabor e seu fogo e nos dão um valor inestimável. Nas lembranças existe sabedoria, intensidade de vida. A memória nunca é experiência vazia, mas algo pleno, carregada de presenças, pois ela afunda suas raízes no coração da existência.

Nesse sentido, a memória é fonte da vida espiritual pois continua tendo ressonâncias na vida.

O Ad Amorem, portanto, é uma “atividade memorial”. Podemos falar, neste caso, de “memória fundante”, pois voltamos a ela não como a uma referência passada, mas como fundamento sobre o qual se vai elevando o edifício espiritual da vida.

Encontramo-nos, aqui, com a experiência espiritual de uma “memória-vida”, ou seja, algo que permanentemente está vivo e influi eficazmente na nossa vida espiritual.

A memória inaciana não é tanto a “memória recapituladora”, mas a “memória discernente e ativa” para interpretar a ação e a direção de Deus em nossa vida. A memória, ativada nos EE., é uma “leitura de fé” ou discernimento da própria história, não só um relato edificante. Aqui não se trata simplesmente da “memória agradecida” do passado, mas a “memória fundacional”, ou seja, o reencontro com a experiência fontal da própria vida. Memória enquanto “arte teologal de reconhecer o projeto de Deus sobre o mundo, sobre o ser humano, sobre si mesmo no presente”. (D. Bertrand).

A re-cordação (visitar de novo com o coração) pode ser uma boa mestra e até uma fonte de crescimento e progresso em nossa vocação à santidade. Elencar os benefícios concedidos por Deus nutre nosso presente com Sua Santidade e nos desperta para um futuro novo.

Por isso, a memória agradecida é o húmus natural de onde brota a gratidão.

Ao fazer memória dos dons e bens recebidos, brota naturalmente do nosso interior, o desejo de dar uma resposta generosa e radical ao Deus que é Fonte de tudo. E é Ele mesmo quem, ao criar-nos gratuitamente no amor, nos ensina a “sermos gratuitos e gratos”; só a generosidade gratuita do coração de Deus é capaz de reconfigurar mentes e encorajar atitudes oblativas em nós.

É a gratidão que ativa em nós o ânimo e a generosidade diante do futuro de nossa missão.

Textos bíblicos: Fil 1,3-11; Ef 1,15-23; Lc 1,46-55

Na oração: deixar que aflore (recordar) os dons e benefícios recebidos, sobretudo neste retiro.

Viver em clima de ação de graças, como atitude permanente diante do Deus Santo, torna a vida mais leve, desperta o sentido da alegria e anima a assumir os novos desafios, próprios deste tempo.


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