Retiro Santo Inácio – Um Homem, Um Santo. Dia 30

25 – S. Inácio, homem dos paradoxos

S. Inácio tinha um pé na Idade Média e outro na Idade Moderna. Por isso sua vida está cheia de paradoxos e aparentes contradições.

Poderíamos afirmar que existe uma tensão permanente entre Iñigo e Inácio.

– Iñigo representa o basco medieval, o “homem do saco”, o místico que peregrina, faz penitências extremas, vive de esmolas plenamente confiado na Providência, imprudente, louco por Cristo e tido como um homem “sem miolo”, um carismático que tem visões e iluminações, desperta suspeitas de “alumbrado” e é julgado e encarcerado pela Inquisição, que prega sem ter estudado, que, sendo leigo, quer reformar conventos de monjas e dar conselhos a bispos sobre como deveriam atuar em sua vida pessoal e pastoral.

– É o Iñigo mendicante, devoto, que vive a religiosidade popular de seu tempo, quase franciscano, que percorre a Europa “sozinho e a pé”, durante muito tempo sem planos de futuro nem projetos definidos, vivendo a “dinâmica do provisório”, que se aloja em hospitais e desejaria viver na Palestina para imitar mais literalmente o Senhor.

– Inácio é o estudante da Paris renascentista e reformista, o homem com capacidade de introspecção e de captar o tempo interior, o chefe de seus companheiros, o fundador de uma nova ordem a serviço da Igreja, o homem prudente, organizador, estrategista genial, que busca os meios mais aptos para obter seus fins, calculador racional e frio, que reprime sua devoção por medo de que as lágrimas debilitem seus olhos e prejudiquem sua visão, tão necessária para seu trabalho apostólico.

– É o Inácio geral da Companhia de Jesus, que desde seu quarto em Roma escreve milhares de cartas e envia missionários a todo o mundo, aquele que busca recomendações de príncipes e bispos em favor da Companhia quando o papa Paulo IV se nega a continuar ajudando o Colégio Romano…

Mas a tensão não se dá só entre dois momentos da vida de Inácio, senão que continua durante toda sua vida, de modo que só podemos falar de Inácio em oposições dialéticas: firmeza e ternura, paixão pelo universal e capacidade escrupulosa de concretizar-se no menor detalhe, busca quase obsessiva pela Vontade de Deus e certeza inamovível quando a conhece, observação atenta da realidade presente mas desentranhando nela o futuro escondido, realismo no conhecimento humano e capacidade de fiar-se dos demais, presença do pensamento da morte sem que isto faça perder o gosto pela vida e o desejo de desfrutar dela, proximidade e distância frente às pessoas, palavra e silêncio em contínua tensão, deixar-se configurar pela realidade e vê-la como oportunidade de transformação…

Quando este paradoxo é vivido com força, surge uma mística e um estilo peculiar de viver, de pensar, de orar… “nosso modo de proceder”.

Uma pessoa inaciana só poderá ser fiel à sua missão e às suas origens inacianas, se vive este paradoxo, que é o paradoxo do Evangelho (Jesus, filho de Deus e filho de Maria, crucificado e ressuscitado…).

A especificidade e novidade do carisma inaciano é manter vivo esse paradoxo da encarnação de Jesus.

Carisma difícil, enigmático, tanto de compreender, como de viver. Mas sua seiva provém do fato de manter unidas as aparentes contradições. Se se perde a dimensão dialética do paradoxo inaciano é como o sal que perde seu sabor.

A figura de S. Inácio pode ser para nós um exemplo que nos anime, oriente e ilumine nossa conjuntura história, fazendo-nos como ele cavaleiros andantes, exploradores, navegantes e peregrinos para o futuro, impulsionados pelo vento do Espírito para os novos horizontes da história.

S. Inácio, um homem para a eternidade, mas também um homem para nosso tempo. Sua vida torna-se especialmente próxima a nós por certas coincidências entre o seu tempo e o nosso, época de transição no campo cultural, na economia, na política, no diálogo inter-religioso…

A personalidade de S. Inácio nos convida a beber dessa riquíssima fonte, que é a sua mística, e encontrar nela a inspiração para dar respostas aos desafios que hoje o mundo e a Igreja nos trazem.


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