Retiro Santo Inácio – Um Homem, Um Santo. Dia 28

23 – Santo Inácio e os marginalizados

Só os apaixonados levam a cabo obras verdadeiramente duradouras e fecundas”

(Unamuno)

S. Inácio de Loyola é um desses personagens que, como Paulo de Tarso, Agostinho de Hipona, Francisco de Assis, Domingos de Gusmão, Tomás de Aquino, Teresa de Ávila e tantos outros, continuam como lâmpadas acesas sobre o candeeiro da história, desconcertando e fascinando ao mesmo tempo.

Estes homens e mulheres, de genuína forja cristã, nos recordam, nos momentos mais críticos da vida, quais são os valores que não se extinguem com o tempo nem se obscurecem com as leviandades humanas.

Tanto em seus escritos como em toda sua vida, S. Inácio manifestou sempre um amor especial e uma entrega incansável e generosa para com os mais pobres, abandonados e indefesos.

Um exemplo muito significativo, embora muito breve, o encontramos na contemplação “Como Cristo expulsou do Templo os que vendiam” (EE. 277). Ao relatar a cena, destaca um matiz que não aparece no Evangelho de João (2,13-25). Inácio diz, no 2º e 3º ponto, que Cristo “derrubou as mesas e o dinheiro dos ricos cambistas que estavam no Templo”, enquanto que “aos pobres, que vendiam pombas, disse com mansidão: ‘Tirai isto daqui e não queirais fazer de minha casa lugar de comércio’”.

Por seu espírito, S. Inácio foi um homem radicalmente evangélico e, na época em que viveu, um autêntico e inquieto reformador. Jamais perdeu de vista a perspectiva evangélica dos “pobres e marginalizados sociais”. Dentro da sua variadíssima atividade pastoral, sobressai o apostolado exercido em Roma em favor das mulheres marginalizadas por causa da prostituição.

Sendo um homem idealista, mas com grande sentido prático, S. Inácio não descansou até encontrar uma solução mais ampla e coerente ao problema das mulheres prostituídas. Fundou a casa Santa Marta, buscando apoio financeiro e canônico e redigindo os estatutos do projeto fundacional.

O simples fato de pôr sua casa de acolhida sob a proteção de Santa Marta e não de S. Madalena, como era o costume, foi um gesto com grande significado inovador.

O nome de “Madalena” evocava sempre o estigma da prostituição, que devia ser esquecido a partir de uma perspectiva pedagógica. O nome de “Marta”, no entanto, se associa imediatamente à mulher ativa e trabalhadora que não tem tempo que perder na perigosa ociosidade.

Mas, acima de tudo, ressalta-se o respeito incondicional à dignidade humana das prostitutas como pessoas necessitadas. Não podia ser de outra maneira desde a perspectiva evangélica e pastoral inspiradora de toda a obra inaciana. Todas as prostitutas são pessoas e todas, sem exclusão de nenhuma, requerem uma solicitude pastoral adequada e especializada.

Muito interessante é a prescrição estatutária do trabalho reabilitador em uma casa da natureza de S. Marta. Foi uma intuição pedagógica de valor perene, inclusive com a preocupação de que o trabalho das internas fosse justamente remunerado.

Além disso, havia uma notável preocupação pela situação das mulheres que caíam na prostituição; o questionário da entrevista para o ingresso na casa S. Marta revela interesse no conhecimento dos problemas familiares, sociais, jurídicos, sanitários, religiosos e psicológicos das postulantes.

S. Inácio compreendeu que o conhecimento prévio da pessoa carente que solicita ajuda facilita enormemente a solução posterior de seus problemas. Neste ponto ele se revelou como um grande psicólogo e precursor dos testes modernos.

Pela sua audácia pastoral e por ser um verdadeiro reformador para assuntos da prostituição feminina, Inácio acabou se tornando em algo assim como o delegado pastoral do Papa Paulo IV para os assuntos da prostituição romana.

Com o mesmo espírito evangélico se entregou também à causa dos órfãos e pensou nos centros de prevenção para as meninas em perigo de corrupção. O tema da prevenção juvenil, tão familiar em nosso tempo, é também profundamente inaciano.

Textos bíblicos: Lc 7,36-50; Lc 10,38-42.


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