Retiro “Eu vim para Servir”. Dia 20

8 – Uma presença que ativa o espírito de serviço

Mc 1,29-39: Nas primeiras comunidades cristãs, o serviço era o sinal de seguimento de Jesus. O verbo que se utiliza em grego é “diakonei” = servir à mesa. Os cristãos elegeram precisamente a palavra “diakonia” para expressar o novo fundamento das relações humanas na comunidade.
A identificação com Jesus servidor é que constitui a marca registrada do discipulado, porque é assim que se gera liberdade e energia transformadora. Onde há autêntica comunidade, aberta e sedenta da “relação serviço”, ela está tornando presente o próprio Jesus, que põe em movimento uma dinâmica redentora.
No relato evangélico que vamos contemplar, Jesus desloca-se da sinagoga, lugar oficial da religião judaica, à casa, onde se vive a vida cotidiana, junto aos seres mais queridos. Nessa casa vai sendo gestada a nova família de Jesus. As comunidades cristãs devem recordar que não são um lugar religioso onde se vive da Lei, mas um lar onde se aprende a viver de maneira nova em torno a Jesus, ou seja, servindo.
O relato descreve com todo detalhe os gestos de Jesus para com a mulher enferma.
Podemos contemplar o texto observando o desenrolar das três cenas: na primeira, vemos uma mulher prostrada, separada, possuída pela febre. Na última, essa mesma mulher a encontramos de pé, já curada, integrada à comunidade e prestando um serviço, ou seja, ocupando o lugar do próprio Jesus que, segundo suas palavras “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida” (Mc 10,45); quando Marcos nos apresenta a sogra de Pedro “servindo”, está nos dizendo: aqui está alguém que entrou na órbita de Jesus, que respondeu a seu convite de colocar-se aos pés dos outros e por isso ela começou a “ter parte com Ele” (Jo 13,8). A cena central nos oferece o segredo de sua transformação: é o primeiro gesto silencioso de Jesus, que se repetirá em Marcos, e bastam três verbos para expressá-lo com sobriedade” – “Ele se aproximou”, “segurou sua mão” e “ajudou-a a levantar-se”
“Jesus se aproximou”. É o primeiro gesto que Ele sempre faz: quebra distâncias, faz-se próximo daquela que sofre, olha de perto seu rosto e compartilha seu sofrimento. A dor vista de longe não dói em ninguém; a dor vista de longe não chega ao coração. É preciso olhar o sofrimento de perto. Aproximar-se já é começar a identificar-se com quem sofre. E quem sofre, começa a ficar curado quando sente a proximidade solidária dos outros.
“Segurou-a pela mão”. É um gesto próprio de Jesus; toca a enferma, não teme as regras de pureza que o proíbem; quer que a mulher sinta sua força terapêutica. Esse contato sanador é que vai possibilitar a cura. Tomar alguém pela mão é gesto cheio de ternura, sinal de carinho e proximidade, sinal de amizade e confiança; sinal de solidariedade; sinal de querer ativar o ânimo em quem sofre. É um gesto simples e cotidiano com o qual Jesus não só curou a mulher da febre senão que está nos indicando um novo modo de fazer comunidade, de ir pela vida estendendo a mão para ajudar a levantar a quem, caído no caminho da vida, espera que alguém lhe dê uma mão para pôr-se também de pé.
Por fim, “ajudou-a a levantar-se”, pondo-a de pé, devolvendo-lhe a dignidade. Para Jesus, as mãos são para isso: ajudar o outro a colocar-se de pé, devolver ao outro a capacidade de dar direção à própria vida.
Assim está Jesus sempre presente entre os seus: com uma mão estendida que nos levanta, como um amigo próximo que nos infunde vida. Jesus só sabe servir, não ser servido. Por isso, a mulher curada por Ele se põe a “servir” a todos; ela foi integrada em seu grupo de seguidores e pode então “servir”, construindo a comunidade de iguais que Jesus queria, rompendo com a mentalidade patriarcal.
Este relato nos dá a conhecer a nova ordem das relações que devem caracterizar o Reino no qual a vinculação fundamental é a da fraternidade no serviço mútuo.
A maneira de Jesus se relacionar com as pessoas prostradas e marginalizadas põe em marcha um movimento de inclusão, devolvendo a todos a dignidade perdida.
Muitas das dificuldades que temos na vida comunitária vem de nossa resistência a nos situar na atitude básica de um serviço que não pede recompensas, nem reclama agradecimentos. A Igreja só atrai de verdade quando as pessoas que sofrem podem descobrir, dentro dela, a Jesus curando a vida e aliviando o O evangelho nos convida a deslocar-nos e aproximar-nos dos lugares onde estão os prostrados da vida, tomá-los pela mão e ajudá-los a levantar-se. Então, todos juntos, nos disporemos a servir, teceremos o manto da solidariedade social e eclesial a partir da cotidianidade; seremos assim testemunhas mobilizadoras numa sociedade cansada de palavras e necessitada de experiências que se façam verdade histórica.

Na oração: Contemple a mão estendida de Jesus: deixe-se levantar por essa mão, agradeça a força e a libertação que lhe chegam por meio dela. A mão de Jesus destrava suas mãos para o serviço.


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