retiro em tempo de distanciamento

20 – Quando o silêncio fala, a vida se transforma

Um santo amadurece no silêncio”

(Bernanos)

O silêncio tem uma função muito mais decisiva sobre o desenvolvimento da personalidade humana.

Conduz o ser humano à plena maturidade de sua existência e lhe faz conquistar o senso de responsabilidade diante do mundo e do próximo.

É unicamente na solidão que ele se torna consciente de seu ser e de sua presença diante do Deus presente. Misteriosa presença que justifica sua aventura e constitui sua grandeza.

Só o silêncio é capaz de mostrar ao ser humano o verdadeiro sentido de sua existência.

Neste silêncio, diante de tão grande Amor, a pessoa se refaz, ou melhor, deixa-se refazer por Aquele que unicamente sabe fazer isso.

O silêncio é vazio e plenitude ao mesmo tempo. É transparência, mistério…

Requer-se silêncio por dentro e por fora; silêncio capaz de transformar porque coloca a pessoa para além de suas capacidades. A lua reflete-se num lago calmo e transparente. Somente no silêncio total, na quietude e harmonia do ser – corpo, mente, afetividade, coração – poderá refletir-se, na profundidade do ser, a verdadeira e autêntica realidade do ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus.

Não é possível o encontro com o melhor de nós mesmos, nem com os outros, nem com Deus, se não fazemos silêncio.

Nosso mundo contemporâneo não nos facilita esta experiência de silêncio. Ele nos faz sentir medo do silêncio, no-lo apresenta como um “vazio” do qual devemos fugir e fartar-nos de ruídos, de sensações…

Contudo, o silêncio está “grávido” de Deus. Deus fala no silêncio; no silêncio se encontra o ser.

Tony de Mello nos diz: “O silêncio não é ausência de som, mas a ausência do ego”.

O silêncio, sinal da máxima intensidade do amor, preside a comunhão com Deus, porque as palavras não são suficientes. O silêncio diz o que as palavras não podem expressar. Por isso o silêncio é o máximo sinal da comunhão com Deus. O silêncio se escuta. “E Deus estava na brisa suave” (1Rs 19,12).

A comunhão com Deus é inefável e inexprimível. Não é possível expressá-la em conceitos. Porque o coração orante não crê no “palavreado crônico”, mas no silêncio.

A vida não se cala, ela se faz próxima, amorosa e profunda. É a hora em que a vida e o silêncio falam; a vida não muda, mas se faz nova.

O silêncio é, sem dúvida, a maneira mais acertada de nos dispormos para a condição de ouvir Aquele que bate à porta de nosso coração e de abri-la. (Apoc 3,20).

A linguagem do silêncio é a mais direta e intuitiva para a expressão do amor.

Como poderia o ser humano habitar em seus atos, em suas palavras, em suas relações e em seus silêncios, sem habitar em seu coração?

Porque é em seu “coração” que o ser humano aprende a amar, a maravilhar-se diante da vida…

Aquele que não ama achará o silêncio vazio e insuportável.

Aquele que ama transformará o silêncio em intimidade. O amor do silêncio conduz ao silêncio do amor.

Aquele que aprende a habitar o “silêncio de seu coração”, a acolher o Espírito, descobrirá o quanto esta energia espiritual do amor fecunda, integra, progressivamente, todas as suas faculdades e unifica todo o seu ser. A qualidade de suas relações, de seus atos, de sua existência cotidiana, depende da maneira como ele habita seu “coração”.

O silêncio é transformante: transforma a vida em nova vida, uma vida além do aqui e agora, mas que se encarna, de forma mais plena, na realidade do aqui e agora.

No silêncio sempre cabe o milagre: o milagre de nosso encontro pessoal, o milagre de nossa transformação.

No silêncio está incluído um poder maravilhoso de clarificação, de purificação e de concentração sobre coisas essenciais. As coisas essenciais e de verdadeira ajuda podem ser expressas em poucas palavras.

Quando o silêncio é forte, denso, imenso, ele se torna eloquente, ele fala e se encarna.

Na oração: Toma o caminho do silêncio. Torna-te silêncio e saberás comunicar melhor as sublimes lições do Infinito que se perdem quando tentamos explicá-las. Deus é silêncio, por isso é Amor.

Seja qual semente que se debruça sobre suas potencialidades, e confiante, recebe a bênção da fecundidade: ousa perder o revestimento de sua casca para que, na gratuidade, se processe a transformação.


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