Retiro Ecologia e Espiritualidade. Dia 12

9 – Ecologia interior – II

Junto com a ecologia ambiental e social, comparece a ecologia mental.

É na mente das pessoas que começam as agressões contra a natureza e a falta de veneração para com a vida e da solidariedade necessária de todos e com todos.

O ser humano não é em sua essência agressivo. Nos seus primórdios mostrou-se sempre um ser cooperativo.” (…) Somente mais tarde, com a acumulação de poder em poucas mãos, começaram as desigualdades e a vontade de possuir só para si.

É o pecado original social. Instalaram-se, então, dentro da mente humana ideias de discriminação, hierarquização e dominação. A Terra não é mais vivida como uma grande Mãe que veneramos mas como um baú de recursos que exploramos. Não escutamos as vozes que todos os seres têm. Escutamos somente nossa própria voz. Se quisermos salvaguardar a natureza e garantir um futuro de vida para a Terra devemos resgatar de dentro de nossa mente os sentimentos de reverência face à sua complexidade e à sua grandeza. Importa ativarmos o cuidado,

a compaixão que estão dentro de nós e fazê-los princípio de ação regeneradora. Devemos colocar na cabeça que somos filhos e filhas da Terra, nossa Mãe.

E os filhos e filhas tratam com amorosidade sua mãe. Tais atitudes mentais trazem benevolência para com todo o universo, especialmente para com os organismos vivos, os animais e plantas e para com os seres humanos necessitados”.

(Leonardo Boff – Ecologia mental: com-paixão com a Terra)

Estamos tomando consciência de que o ser humano está procedendo de maneira destrutiva contra a natureza e contra si mesmo, produzindo um verdadeiro colapso ecológico e humano.

Há uma crise ecológica que se alastra rapidamente, corroendo o equilíbrio vital que sustenta a criação toda: busca desenfreada de lucro, sede voraz de posse, extinção acelerada de espécies, desmatamentos descontrolados, emissão elevada de gases, uso abusivo de agrotóxicos, contaminação das fontes…

A natureza está sendo “desnaturada” e o ser humano “desumanizado”. Esta crise aponta para um ser humano doente; ou seja, a degradação da natureza é fruto da doença que afeta o ser humano e seu processo civilizatório moderno e industrial.

Há uma correlação entre crise ecológica e crise do ser humano.

A doença consiste justamente na separação entre o ser humano e a natureza, no esquecimento de seu parentesco e solidariedade.

Pelo fato do ser humano participar da natureza, ele peca contra ele mesmo ao pecar contra ela.

Todos somos filhos e filhas da Terra. Mais ainda, como humanos, somos a própria Terra em seu momento de sentimento, de pensamento, de amor e de veneração.

Historicamente cometemos um sacrilégio: rompemos a aliança fundamental de todo o universo, a solidariedade cósmica pela qual nunca existimos sozinhos mas co-existimos e inter-existimos uns pelos outros, com os outros e para os outros. Separamo-nos da comunidade planetária, colocando-nos acima de todos os seres, ao invés de vivermos a comunhão com eles, na ilusão de que as coisas só têm sentido à medida que nos servem, entregues ao nosso bel-prazer.

Cometemos um pecado ecológico. Ficamos surdos e mudos diante das mil mensagens que nos vem de cada ser e do universo inteiro. Não auscultamos nosso interior onde a Divina Presença brilha como um sol e se manifesta como élan vital e entusiasmo por viver, lutar e criar (leio: Rom 1,18-32).

O pecado se mostrou como uma força de desintegração do ser humano com sua Fonte Original, como força de desintegração do ser humano consigo mesmo como nó de relações e com o seu projeto de auto-realização pessoal e social e, por fim, como força de desintegração com o Todo.

Por trás da palavra “pecado” se esconde o drama da existência humana. Esse drama mostra-se trágico, pois revela uma aparente situação insolúvel que dilacera o coração e estraçalha a esperança humana.

No entanto, a experiência cristã afirma: o ser humano é resgatável. Ele não está condenado definitivamente à condição de pecador. Na esperança podemos atravessar a noite escura dos pecados, porque há um Sol que ilumina cada recanto de nossa vida e o mais distante recôndito do universo.

Sol que não conhece nenhum ocaso (leio Os 2,9-10.16-25).

Podemos parafrasear o no 60 dos EE, dizendo: “Quando contemplo a maravilhosa harmonia da criação, fico admirado que ela não tenha se voltado contra mim, considerando-me uma nódoa no conjunto de sua beleza. Quando me fecho em mim mesmo, a terra continua me sustentando e o sol se nega a me queimar como a um plástico. Quando realizo atos ruins as flores me oferecem sua fragrância. Quando eu me afasto de Deus e dos outros, o ar continua entrando em meus pulmões e a luz ilumina meus olhos… Apesar de eu estar totalmente fora de sintonia com tanta beleza, a natureza inteira está sempre disposta a me perdoar, me reconquistar e me embelezar. Do meu coração brota uma exclamação de admiração com intenso afeto”.


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