Retiro “A arte de cuidar com resiliência”. Dia 4

2 – Princípio e Fundamento do cuidado

“A era da subjetividade e do domínio mecanicista do mundo chegou ao limite definitivo com a contínua destruição da natureza pelas nações industrializadas e pela crescente auto-ameaça que pesa sobre a humanidade com o armamento nuclear. Dentro destes limites só há uma alternativa realista à destruição universal: a comunidade ecológica universal, não-violenta, pacífica e solidária” (J. Moltmann).
No tempo de S. Inácio, o imaginário dominante era extremamente sagrado.
O cosmos era visto na perspectiva de Deus; Ele o criou e o cosmos existe para que o ser humano, por meio dele, dê glória a Deus. Neste sentido, “as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o ser humano…” (EE. 23), não desperta nenhuma idéia instrumentalizadora da Criação.
A intenção fundamental de S. Inácio é o louvor, a reverência e o serviço de Deus.
Tudo existe para ajudar o ser humano a conseguir o fim para o qual foi criado.
De maneira especial, na “Contemplação para alcançar amor”, S. Inácio apresenta um cosmos profundamente sagrado, no qual “Deus habita nas criaturas” e “trabalha e age por mim em todas as coisas criadas sobre a face da terra” (EE. 235-236). Tudo desce do alto.
Ao desaparecer o horizonte sagrado e a orientação teológica da criação para a glória de Deus, produziu-se um deslocamento da visão teocêntrica, que acabou favorecendo a secularização e a ação destruidora da natureza por parte do homem.
O antropocentrismo fechado e absoluto desencadeou uma fúria destruidora, uma sede de dominação, um comportamento altivo e soberano do ser humano diante da natureza.
Consequências: há um outro ar contaminado que invade tudo:
– individualismo sem medida, competitividade selvagem, falta de solidariedade, materialismo, hedonismo, insensibilidade diante da dor dos outros, ausência de princípios éticos, falta de compaixão e de cuidado, surdez às mensagens do universo e de todas as coisas, indiferença frente à sacralidade do mundo…
– estrangulou-se a capacidade de enternecimento, de encantamento e de reverência diante da profundidade da vida; o ser humano não é mais capaz de “louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor”.

Diante desta situação que caminha para a destruição total, faz-se urgente uma nova consciência ecológica, ou seja, que o ser humano mude sua maneira de relacionar-se com a natureza e passe da “dominação à benevolência, do ‘sobre-pôr-se’ e do ‘im-pôr-se’ ao ‘com-pôr-se’, da guerra à paz, da exploração ao respeito, da destruição ao cuidado, do secularismo devastador à sacralidade reverente”.
A primeira lei não é a superioridade do ser humano em relação ao cosmos senão a solidariedade cósmica. “Tudo foi criado” para uma imensa e cósmica solidariedade.
Nela o papel do ser humano é ser a consciência, a responsabilidade ativa.
O “hino da Criação” precede e se mantém para além do ser humano.
Ele é capaz de cantá-lo com consciência e liberdade. Mas não o compõe. Seu compositor é o Criador.
Nem tampouco pode modificá-lo a seu gosto. Tem de respeitar sua pauta e sintonizar sua voz com as infinitas vozes de todas as criaturas.
Há um canto universal e majestoso que as criaturas elevam a Deus; o ser humano é chamado a unir-se a esse hino. No menor dos seres vibra o Nome de Deus, através de Quem tudo se mantém e conserva.
Cada ser canta este Nome à sua maneira, formando uma admirável sinfonia. Se o ser humano não louva a Deus com a voz das criaturas, o princípio fundante da Criação será o ruído e não a harmonia.
A consciência ecológica propõe duas tarefas que são muito inacianas.
A 1ª é de purificação, de conversão da “força dominadora” do coração humano diante de “todas as coisas sobre a face da terra”.
A 2ª é criar uma mentalidade nova, um coração novo, uma sensibilidade cósmica, no qual “o louvor, a reverência e o serviço de Deus” exijam uma atitude de acatamento, de respeito e de cuidado diante da Criação.

Textos bíblicos: Gen 1; Sl 104(103).

Na oração: “Senhor, rodeado de vossos “mistérios”, em tudo e todos, na gratidão, eu esbarre em Vós. Ao descobrir no cotidiano traços do Infinito, eu me sinta portador do grande Mistério” (Frei Cláudio).


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