Retiro “A arte de cuidar com resiliência”. Dia 25

18 – Resiliência:
a arte de ser flexível e superar adversidades

No atual contexto pós-moderno, nota-se que as pessoas são afetadas por altos níveis de tensão, estresse, ansiedade… As pressões do dia-a-dia, sobretudo no campo da educação, interferem em seu comportamento. Muitas delas têm suas competências diminuídas ou ocultadas quando passam por situações adversas e não conseguem lidar bem com elas; outras, ao se depararem com problemas profissionais, econômicos, de saúde, de família, dentre outros, se deixam abater e encontram-se em situações sem saída.
As decepções geradas pela incapacidade de resolver as contradições, conduzem o indivíduo ao sentimento de impotência diante das adversidades que lhe são impostas.
A verdade é que poucas pessoas são capazes de suportar situações de estresse; isso compromete a iniciativa de lutar, e o medo de novos reveses gera acomodação frente a cada situação diferente e nova.
De que maneira as pessoas reagem diante de situações de forte pressão e de estresse?
. algumas pessoas têm a tendência à resignação e acabam aceitando, passivamente, os dissabores da vida;
. outras se fazem de vítimas; outras são fatalistas, revoltadas…;
. mas há aquelas que são capazes de, em determinados momentos e de acordo com as circunstâncias, lidar com as adversidades, enfrentar as tensões com desenvoltura e revelar uma grande força de recuperação, fazendo de cada experiência um aprendizado positivo. Isso não significa a eliminação de um problema, mas uma re-significação do mesmo.

A capacidade de suportar pressões no dia-a-dia tem recebido um nome: “resiliência”.
Esta expressão tem sonoridade estranha e significado pouco conhecido, mas pode fazer a diferença em nossa vida. O conceito vem da física: é a propriedade que alguns materiais apresentam de voltar ao normal depois de serem submetidos à máxima tensão e pressão. O termo tem origem no latim “resilio” que significa retornar a um estado anterior, “voltar ao estado natural”.
A partir da física, a expressão “resiliência” migrou para outras áreas como a psicologia, a educação, a pedagogia, a ecologia, a espiritualidade…, numa palavra, todas as experiências humanas que implicam flutuações, adaptações, crises e superação de fracassos ou de estresse.
Transportada para o campo das relações humanas, a resiliência pode ser traduzida como a capacidade de um indivíduo ir de um extremo ao outro dos seus limites, como se fosse um elástico, sem se romper.
O ser humano pode, sim, desenvolver a capacidade de se recuperar e de crescer em meio a sucessivas pressões; ele pode, sim, responder de forma mais consistente aos desafios e dificuldades do seu cotidiano, reagindo com flexibilidade diante das circunstâncias desfavoráveis, tendo uma atitude otimista, positiva e perseverante e mantendo um equilíbrio dinâmico durante e após os embates.
A resiliência é uma característica da personalidade que, ativada e desenvolvida, possibilita ao sujeito superar-se diante das pressões de seu meio, desenvolver um auto-conceito realista, uma auto-confiança e um senso de auto-proteção que não nega a abertura ao novo, à mudança, ao outro e à realidade.
O resiliente não se abate facilmente, não culpa os outros pelos seus fracassos e adversidades, tem um humor invejável, age com ética e dispõe de uma energia espantosa para lutar; o resiliente é capaz de continuar uma vida de qualidade, sem auto-punições, sem resignação destruidora, renascendo sempre dos escombros.
Uma pessoa resiliente não é apenas aquela que revela capacidade de resistência face às adversidades, mas sim aquela que é capaz de manter-se inteira quando submetida a grandes exigências e pressões ou seja, é capaz de dar a volta por cima, aprender das derrotas e reconstituir-se, criativamente, ao transformar os aspectos negativos em novas oportunidades e em vantagens; ela faz das dificuldades o combustível para se tornar melhor. Ao manter um padrão positivo na resistência, a pessoa consegue ampliar seus horizontes e caminhar com autonomia.
A resiliência remete à capacidade que as pessoas têm, tanto individualmente como em grupo, de resistir a situações difíceis sem perder seu equilíbrio inicial, isto é, a capacidade de ajustar-se constantemente de maneira positiva. Ser resiliente é ter o controle emocional perante as adversidades, não permitindo que os acontecimentos e até mesmo as pessoas ditem o seu estado de humor.
Nesse sentido, o estresse e a pressão podem se transformar numa energia potencial para solucionar problemas, resolver conflitos, atingir metas e alcançar a realização pessoal e comunitária.
A resiliência não é algo “extraordinário”, mas é um fenômeno promovido e vivido no cotidiano; ela pode ser desenvolvida em qualquer época da vida. A resiliência é, pois, universal e não privilégio de pessoas excepcionais. Ela constitui um dos elementos fundamentais da nossa reserva de recursos interiores que precisam estar corretamente articulados e suficientemente desenvolvidos.
Todos nós podemos ser “resilientes”. Não é à toa que a superação e o crescimento humano são potencializados em momentos de dificuldade. O ser humano precisa enfrentar desafios para testar seus próprios limites. À medida que ele potencializa sua resiliência, reduz a vulnerabilidade e vice-versa.
Sabiamente, Carlos Drummond de Andrade escreveu: “A dor é inevitável. O sofrimento, opcional”.
Sua lucidez poética traz à tona uma das maiores capacidades humanas, tanto na esfera pessoal quanto institucional. Dentro de nós estão todos os recursos para suportar as vicissitudes da vida, sobreviver às adversidades sem perder o senso de integridade.
Costuma-se dizer que é o lugar da espiritualidade, o lugar onde habita Deus.
A espiritualidade é o coração e a alma da resiliência, que se expressa na vivência de amplos valores e na busca de significado, sentido e coerência de vida. A partir do “eu profundo”, a pessoa visualiza sonhos, novas possibilidades, desperta a criatividade, aprende, muda e cresce através das adversidades e fracassos. Comprometida com a vida, a resiliência espiritual permite que todas as experiências pessoais possam ser interpretadas com sentido e esperança, inclusive nos momentos em que a vida parece oferecer menos esperanças.
Uma verdadeira metáfora da experiência humana de resiliência: ir ao “fundo do poço” e “sair do fundo do poço”. Os grandes líderes bíblicos, profetas e santos conheceram este momento: no fundo da prisão, no caso de José do Egito; no deserto do desânimo, no caso de Elias; no abandono noturno, no caso de S. José; na gruta de Manresa, no caso de S. Inácio…
É a “noite escura” que toma conta da alma, a partir de onde nova luz, mais brilhante, pode surpreender.
Somente pessoas livres, sabáticas, de resistência sem desespero e sem dispersão… são resilientes.
Trata-se de uma “resiliência mística”, um recurso à espiritualidade, à contemplação, com o olhar de Deus em meio a situações caóticas.
A resiliência é a arte da vida, da flexibilidade e da atualização das nossas potencialidades, frente aos dramas da mesma vida. Viver é uma aventura, é “travessia” em direção à outra margem, enfrentando ventos e tempestades, sem se afundar.

Textos bíblicos: Mc 4,35-41; 2Cor 4,7-15; 2Cor 6,1-10.


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