Retiro “A arte de cuidar com resiliência”. Dia 24

17 – Resiliência: uma história aos pedaços
reconstruída pelas mãos criativas de Deus

“Com pedaços de mim eu monto um ser atônito”
(Manoel de Barros)

A espiritualidade inaciana possibilita a transformação do eu, e o faz mergulhando a pessoa em sua própria condição humana, sob a ação do Espírito.
Além de ter acesso e contato com a realidade do mundo exterior, S. Inácio quer que o exercitante toque o mais genuíno e autêntico, o mais profundo e íntimo de sua própria e pessoal realidade. Ele mesmo, em sua Autobiografia, descreve a experiência de resiliência pela qual passou, durante sua estadia em Manresa: lhe parecia que era um outro homem e tivesse outro intelecto.
A transformação desejada se verifica quando o eu está “tomado pelo fogo de Deus” (Aut. 9), configurado internamente segundo a imagem do Cristo.
Somente a ação criativa e contínua de Deus é capaz de costurar novamente os pedaços de nossa história; ao mesmo tempo ela nos faz descobrir a beleza e a harmonia desses mesmos pedaços. Tal qual o oleiro, o Senhor nos cria e nos re-cria continuamente (Jo 9). Nada é desperdiçado. Suas mãos de artista não jogam fora nenhum pedaço de nossa existência vivida, e sim, compõe e re-compõe continuamente, num desenho novo, o que nos foi dado viver. A experiência de nossa própria fragilidade pode converter-se em experiência de Deus, do Deus rico em misericórdia, e até o passado mais fragmentado está aí para dizer que Ele desenhou nosso ser na palma de suas mãos (Is 49,14-26).
Assim, o passado em pedaços adquire um significado totalmente diferente, e cada acontecimento se torna fragmento de um plano amoroso, escrito no coração do Criador. O ato divino de costurar os pedaços de nossa história não significa somente juntar os cacos, como se no passado existissem somente derrotas e fracassos a serem anotados e aceitos. Deus acolhe e dá um sentido a todas as vivências e experiências; só Ele consegue juntar até as contradições e inconsistências da vida, dando coerência e unidade ao todo existencial e, com isso, fortalecendo a identidade e originalidade de cada um.
É um contínuo re-nascer; é um prolongamento da Criação: “faça-se a luz”, “façamos o ser humano”.
Repetir o gesto criativo de Deus significa tomar nas mãos os “fragmentos” daquilo que foi vivido, trazê-los das profundezas onde sempre estiveram confinados, colocá-los sobre a mesa, tocá-los, revirá-los, contemplá-los, aceitá-los, revivê-los, re-criá-los… Com a argila de nossa existência, aquecida pelo calor do Espírito de Deus, podemos transformá-la em material de uma nova experiência de vida.
Não se trata de sufocar a vida, mas de torná-la leve e luminosa, mantendo límpida a sua fonte, livrando-a da camada de sentimentos negativos.
A dinâmica da 1a Semana, possibilitada pela graça misericordiosa de Deus, nos dá força e tranquilidade para empreender um mergulho dentro de nós mesmos. Ela vai reordenando fatos, completando os vazios, corrigindo distorções, revivendo situações paralisadas, conferindo sentimentos…
Ao tomarmos distância de nossa história pessoal, ampliamos o horizonte de leitura de nossa vida; isso possibilita uma recomposição da própria vida e dá um novo significado aos acontecimentos vividos. As experiências do passado não podem ser mudadas, mas a nova “re-leitura” pode mudar a interpretação dada a elas. Tal experiência reconstrutora é para corajosos, persistentes, vitais, amantes da verdade.
Esse retorno orante ao passado liberta a pessoa para que caminhe para o futuro sem precisar ficar arrastando o peso do que já foi, mas sendo capaz de usar tudo isso para ter mais forças. Essa experiência reforça a resiliência interna, impulsiona o crescimento interior e mobiliza a pessoa para retomar a “escrita” de sua história, agora com um olhar compassivo e acolhedor.
Nas páginas fragmentadas da existência o exercitante poderá ler uma história de amor profundo, uma história imortal O que não foi bem escrito no passado poderá ser escrito de outra maneira no futuro…
Mas tudo é reconstruído e, com toda certeza, será publicado pela “editora da vida”.
O retorno orante à própria história amplia a compreensão do que somos como pessoas (únicas, originais, sagradas… e com uma missão especial), e nos ajuda a responder às eternas questões humanas: quem sou eu? para quê vim ao mundo? para onde conduzir minha vida?
O desejo de ser “criado e re-criado” significa a vontade paciente e obstinada de fazer girar em volta desse Sol todos os fragmentos de vida, cada pensamento, cada gesto, projeto, afeto, sentimento…, para que seja por ele iluminado e aquecido, readquira vida e se transforme…


%d blogueiros gostam disto: