Reflexão Dominical

A dolorosa ferida do medo

Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!

(Mt 14,27)

Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do ser humano. Há um verdadeiro pânico permanente envolvendo grupos, pessoas e instituições.

O medo deixa as pessoas vulneráveis à manipulação.

Elas encaram os outros como inimigos, e as oportunidades como ameaças. A vida é um campo de batalha

Uma longa cadeia de medos, da primeira à última respiração, nos ameaça nesta terra de sombras.

Diferentes medos congelam nossas relações, atormentam nossa vida, quebram nossa serenidade, obscurecem o nosso próprio ser, matam nossos sonhos e intuições: medo do fracasso, da velhice, medo de mudanças, medo de decidir, medo de não corresponder às expectativas dos outros, medo de perder o emprego, medo de se comprometer, medo da situação social-econômica, medo da violência, medo do diferente, medo do vazio, medo do outro, medo da solidão, medo do novo, medo de viver e de morrer, medo de dizer a verdade (dá medo porque também se tem medo da verdade), medo do futuro…

Há um medo silencioso que se manifesta na falta de sentido da vida: o medo que abala as razões para viver. Nada mais terrível do que ter medo de tudo. Com medos é insuportável viver.

Grandes medos não aparecem com frequência; são os pequenos medos que surgem dos encontros diários com a realidade e roubam da pessoa sua vitalidade e dinamismo. O medo inibe o pensamento, impede a concentração e é, portanto, muito responsável por se fazer as coisas de modo medíocre, sem valor, abaixo das possibilidades e contra as próprias expectativas.

O medo não é um ato moral nem uma omissão. Sem ser convidado, ele cresce no coração humano. Em tal atmosfera de medo, a imaginação e todas as energias criativas se atrofiam.

O medo é um câncer que ameaça à fé, ao amor e à esperança de pessoas e instituições; ele corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade. O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”. Sua intensidade pode anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo.

Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor e seca as fontes da esperança; ele nos acovarda e nos enterra na acomodação mesquinha.

Estamos condenados, como pessoas e como seguidores de Jesus, a viver no medo?

Do meio dos ventos contrários e do mar agitado brota um forte apelo: “Não tenhais medo”. Um apelo com força libertadora; é a força da voz de Alguém cuja presença alavanca o passo para a travessia: o passo da mudança, o passo da audácia de sonhar de novo, o passo para vislumbrar a outra margem…

Os conflitos mais profundos do nosso coração são pacificados com o atrevimento da coragem, com a força da fé, com a imaginação solta, com a criatividade livre e desimpedida…

É preciso rastrear, identificar, compreender e desterrar os medos de nossos corações.

É urgente substituir a cultura do medo pela cultura da coragem. A coragem desbloqueia energias, impulsiona decisões, levanta projetos, reacende a criatividade e o gosto por viver.

Só assim poderemos trabalhar em liberdade e viver na alegria, recuperar a confiança no Deus que nos olha com ternura, viver a partir do amor que afasta todos os medos. De fato, “no amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo…; quem sente medo ainda não está realizado no amor” (1Jo 4,18)

Sem a superação cotidiana desse medo, nossa missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus. O compromisso com o Reino requer de todos uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade.

Vencido o medo, nós nos tornaremos autênticos, criativos e audazes seguidores de Jesus. “Quem for medroso e tímido volte para trás” (Jz 7,3)

Texto bíblico: Mt 14,22-33

. Jesus conhece a necessidade de intervir no mais escondido de cada um dos discípulos; ali estão alojados os mais diferentes medos, que minam a força e a coragem do seguimento.

. Dar nomes aos medos pessoais: são reais? Imaginários?


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