CAP I

Contemplação inaciana

Adroaldo Palaoro, sj

 

“… como se eu estivesse presente, com todo acatamento e reverência possível” (EE)

 

A CONTEMPLAÇÃO nos Exercícios é uma forma de oração através da qual deixamos que o Mistério da Vida de Cristo nos penetre e nos vá permeando como por osmose (por “conaturalidade afetiva”) e ao mesmo tempo vamos “conhecendo intimamente” esse mistério insondável.

“Contemplar” não é especular sobre um texto evangélico, nem tirar conclusões, nem sequer examinar minha vida a partir da atuação de Jesus. Trata-se de fazer-me presente à cena evangélica, esquecer-me de mim e estabelecer uma relação de presença, de intimidade… que faça possível com que a Pessoa de Jesus vá se “adentrando”  em mim.

Na contemplação o ponto de partida não é uma recordação, senão a tomada de consciência de meu estar presente diante de Alguém. Estabelece-se uma relação interpessoal que suscita a atração, a sedução…

A contemplação é uma ajuda concreta para centrar o AFETO e liberar o DESEJO numa só direção; é um apoio para que a pessoa inteira se deixe “afectar” pela cena e permita que Deus lhe interpele desde o “acontecimento salvífico”. Então Deus tem a iniciativa e a pessoa cala.

Contemplam-se mistérios de Cristo e isso contagia e configura interiormente a pessoa.

A Revelação são fatos e ditos: é necessário olhar, escutar e observar as pessoas da cena.

Não se trata de algo estático, mas em movimento, dramático, presente… Não se trata de reproduzir arqueologicamente uma cena; é necessário carregá-la de sentido: é encontro com Alguém.

Aquele que contempla também não é uma pessoa abstrata. Sou eu, carregado com minha vida, minha história, meu temperamento, meus sonhos, minhas capacidades…

A contemplação põe juntas a pessoa (e sua história) e o mistério, para que haja interação e assimilação.

A contemplação lentamente vai transformando a pessoa sem que ela o percebe.

“Nós nos tornamos aquilo que contemplamos”.

A contemplação não deve ser força, mas “deixar-se levar, interpelar…”

A contemplação ajuda a evangelizar os nossos sentidos, reações, sentimento, impulsos…

“Trata-se de cristificar o nosso olhar, escutar, falar, sentir, agir…”

A contemplação abre-nos o caminho para penetrarmos profundamente na vida, obra, missão, opções, atitudes, valores… de Cristo.

A contemplação de Cristo não é uma simples “maneira de orar”; significa consentir ser introduzido no “mistério” que é Jesus Cristo; significa deixar-se “impregnar” pelo modo de ser de Cristo: suas palavras, gestos, atitudes… é confrontar-se com Alguém que chama.

Para conformar-se à imagem do Filho é necessário que se entre na contemplação não como turista, mas como amante; não com o coração dividido, mas como pessoa que fez uma escolha de vida pelo Senhor.

Em si mesma, a CONTEMPLAÇÃO é viva, criadora, dinâmica e continuamente renova nossas opções e atitudes profundas. Não se trata de uma atividade nossa sobre a cena, mas da atividade da cena sobre nós; vai nos modelando. Através da cena contemplada o PAI nos conforma ao FILHO, esculpe em nós com o dedo do Espírito

Santo aquela imagem única de “filhos no Filho” que somos chamados a ser.

Progressivamente, a contemplação vai criando um “sexto sentido”: o “sensus Christi”, ou seja, a assimilação progressiva do modo de ser de Cristo.

A contemplação inaciana termina na união com Deus na ação. Contempla-se um Cristo dinâmico, que realiza o Projeto do Pai e nos convida a trabalhar com Ele. A contemplação inaciana desemboca na “prática”; ela não é neutra, mas comprometedora. Como o verdadeiro contemplativo deve “participar da cena evangélica”, assim também aquele que participa da realidade e nela se encontra inserido deve experimentar um verdadeiro “encontro” com Deus.

Quem faz a experiência da contemplação na oração deverá ser um contemplativo na ação, isto é, no engajamento e no serviço.

Tal como fazemos na oração, devemos fazer na ação; dar os passos próprios de toda contemplação, isto é:

– OLHAR as pessoas… e nelas descobrir a Pessoa do Senhor;

– ESCUTAR o que dizem…: entre todas as vozes que escutamos, perceber e discernir qual é a do Senhor e o que Ele tem e me dizer.

– OBSERVAR o que fazem…: participar, me fazer presente… optando, colaborando de modo evangélico numa tarefa… querendo construir a história dos homens com os valores do Evangelho.


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