31 de julho – Festa de Santo Inácio de Loyola

Aprendiz da vida: de Iñigo a Inácio de Loyola

 

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber porque, e desde aí perde o poder de continuação – porque a VIDA é mutirão de todos…”

(G. Rosa)

 

  1. Inácio, o “cavaleiro” e herói forçado de Pamplona, o “peregrino” de Jerusalém, o “doutor” em artes pela Universidade de Paris, o “místico” de Manresa, o “pobre” que tudo deixa e apaga os rastros da nobreza do mundo, o homem “vestido de saco”, o “fundador” da Companhia de Jesus…

Uma mesma pessoa, um mesmo carisma e os frutos…

De aprendiz da vida o peregrino de Cristo tem que passar por ser aprendiz de cristão, andarilho de Deus e dos homens. Antes de tudo tem que encontrar-se consigo mesmo.

Sepultar o “velho homem” e armazenar o novo, forjar-se para estar pronto para o mais e melhor. Despiu-se das armas deste mundo para tornar-se no artesão, solitário e secreto da sua tranquilidade interior”.

“O herói por dentro é sempre uma criança, seu coração é sempre infantil. Um herói não é senão uma criança grande” (Unamuno).

A forja começara em Pamplona – defender ou morrer, determinara-se em Loyola numa eleição comprometida, e há de temperar-se e ganhar mais formas e consistência em Manresa.

A transformação interior que esta experiência “rompedora” produziu em Inácio, continuada e aprofundada nas experiências seguintes, apresenta estas características:

– manifesta-se num aberto apaixonamento – no sentido mais forte e positivo do termo –, pela pessoa de Jesus, o Senhor. Sua transformação mais radical, em último termo, consiste numa troca de “senhor”. “O Senhor”, “meu Senhor”, “nosso Senhor” desloca outros senhorios e é incompatível com eles. Surge assim um novo centro da pessoa, em relação com o qual se lhe re-colocam tudo e todos.

– é imediata, na pessoa de Inácio, a função unificadora deste centro e a reconciliação de seu “idealismo” mais sonhador com seu “realismo” mais concreto, de suas “debilidades” largamente experimentadas com sua fonte de “desejos e esperanças”, de sua “velha cultura” humana com a “iluminação” que lhe faz ver “todas as coisas novas”. E é bem visível o dinamismo reconciliador deste centro em relação a “todas as demais coisas sobre a face da terra”.

– o “novo” e o “caminho” mesmo desta transformação interior revelam um eixo central que vai da maravilha ao desejo e do desejo à ação e ao compromisso na história.

 

  1. Inácio, ao sair desta experiência, não será e nem poderá ser, um solitário. Ele é “invadido” no mais profundo do seu ser. Toda a Criação e, dentro dela, todo ser humano, passam a formar parte de sua vida e de sua história, que será já a história de muitos.

O fruto final é um novo modo de situar-se diante de tudo o que é humano. Na experiência de Deus se realiza simultaneamente a experiência do homem; ou, na experiência do homem reside um potencial imenso de experiência de Deus. Ambas realidades são inseparáveis para Inácio.

Iñigo ia aprendendo a partir de si mesmo a caminhada fundamental que o mesmo S. João da Cruz explica nestes três momentos esclarecedores:

“Centrar-se em si mesmo = crescer

descentrar-se, na entrega ao outro = amar

supercentrar-se em Alguém maior que ele = adorar.”

 

Podemos aplicar a S. Inácio a frase inscrita no túmulo do poeta norte-americano Robert Frost: “Aqui jaz um homem que viveu um caso de amor com a vida”.

 


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