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“Asas do desejo”

por Marcelo Sobrinho

 

“Se o homem fosse um animal ou um anjo, não sentiria angústia. Mas, sendo uma síntese, angustia-se. E tanto mais sente a angústia, quanto mais humano for.” Soren Kierkegaard, O Conceito de Angústia

 

Uma humanidade melancólica, despedaçada e em transformação. Anjos que colocam suas cabeças em seus ombros para ouvir seus lamentos e tentar lhes oferecer conforto e esperança para suportar os inúmeros acintes do mundo. Essa é a premissa de Asas do Desejo, tradução de gosto duvidoso para Der Himmel über Berlin (que significa literalmente Um Céu Sobre Berlim). Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são dois desses anjos que vagam sobre a estonteante e lúgubre Berlim do final dos anos 80, às vésperas da queda do Muro. Grandes espaços urbanos, filmados em plano zenital e com constante movimento de câmera, revelam o cenário onde os alemães tentam suportar a vida, em um momento histórico tão difícil e bem registrado pelas lentes de Wim Wenders em seu trabalho mais icônico.

Na abertura do filme, o anjo Damiel está no alto da Gedachtniskirche, famosa igreja berlinense bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial e mantida em ruínas após o conflito, como símbolo histórico da cidade. A igreja ficou conhecida após a guerra também como kappute kirshe, isto é, igreja quebrada pela razão. Em um conhecidíssimo plongée, Damiel vê as pessoas transitarem na rua, avistado apenas pelas crianças, com seu olhar tão virginal para o mundo. O anjo que protagoniza Asas do Desejo olha a humanidade por sobre um de seus símbolos de destruição. Fica clara a antítese proposta: uma criatura etérea observa dos céus a humanidade, revelando sua vida mundana e sua imensa vocação para gerar dor e devastação.

Os anjos conhecem a humanidade em toda a sua dimensão epistemológica, isto é, são capazes de reconhecer suas dores mais profundas e de imaginar suas reações frente ao mundo que se coloca. Mas não são capazes de sentir suas aflições, suas alegrias e sua materialidade, presente no gosto de seu sangue, no odor azedo de um alimento, na sensação de frio e no simples toque de um objeto. Também não podem experimentar o amor, que Damiel começa a sentir por Marion (Solveig Dommartin), uma bela trapezista de circo. Em uma conversa com seu companheiro Cassiel, o personagem de Bruno Ganz revela sua cobiça em se tornar um humano e poder experimentar seu mundo de incertezas ou, como ele mesmo diz, “poder achar em vez de saber”. Esse diálogo é um dos momentos mais interessantes de todo o filme, com grande poder filosófico ao tratar do encanto provocado pelo que há de mais prosaico na vida humana.

A relação entre os anjos de Wenders e os humanos é enriquecida por um excelente recurso do roteiro – o fluxo de consciência. Ele está presente na cena em que Damiel tenta aplacar o desespero de um homem acidentado, naquela em que Cassiel tenta evitar o suicídio de um rapaz, que pula do prédio, apesar dos esforços do anjo, entre tantas outras. O filme parece evocar a ideia de que as grandes angústias humanas não podem ser expressas linearmente, organizadas pela razão. Cabe então ao stream of consciousness, técnica usada em literatura por autores como o americano William Faulkner, o papel de fazer os pensamentos humanos serem ouvidos pelos anjos em sua forma mais genuína.

A relação dialética entre a intangibilidade e a materialidade, a eternidade e a efemeridade, o celestial e o mundano é o grande centro temático do filme de Wim Wenders. Para imprimir todos esses significados em sua obra, o diretor alemão utiliza-se de um dos mais belos trabalhos de câmera já alcançados na história do cinema. A cena em que Damiel e Cassiel estão na belíssima biblioteca de Berlim é um momento de altíssimo virtuosismo técnico de Wenders. Em um travelling de extrema elegância e quase incessante, passeamos por todo o local, enquanto as pessoas se dedicam aos estudos e à leitura, com os anjos ao seu lado. Essa cena, de enorme beleza, mostra os anjos como guardiões do saber. Aqui o mundo eterno dos anjos se imiscui ao mundo efêmero dos humanos, denotando que o saber é o grande modo com que os homens permanecem na posteridade, já que a eternidade lhes foi negada.

Imperdoável seria não comentar também sobre o que é, para mim, o melhor momento narrativo da obra. Os dois anjos conversam sobre a história da criação do homem, quando foi possível ouvir o seu primeiro grito e, por fim, surgiu o dom da fala. Dissertam também sobre o surgimento do primeiro conflito entre os homens e assim nascia a história das guerras. É fabuloso que eles estejam nesse momento sobre o rio Spree, ao lado do Muro de Berlim. Com a câmera parada, eles caminham com passos uniformes para perto do Muro, grande símbolo dos conflitos humanos naquele tempo e naquela cidade. Wenders desenvolve uma obra cheia de ideias, que dialogam constantemente com a construção estética de seu filme.

A cobiça de Damiel por se tornar humano é finalmente atendida e o anjo caído da eternidade surge, em mais uma