Reflexão dominical

Advento: saudades do futuro

 

“Espero Deus com voracidade” (Rimbaud)

 

Advento é tempo de espera, de vigilância, de preparação e de chegada.

É o tempo litúrgico onde o suspiro de expectativa e de esperança não fica sem resposta.

O Advento é um brado de esperança. “O ar está cheio de nossos gritos” (Beckett).

A Vinda de Cristo é, portanto, o grande evento que agita os corações, sacode as inteligências, inquieta as pessoas, move as estruturas…

Toda a nossa vida se transforma na história de uma espera e de um encontro surpreendente.

Quem vive o clima do Advento não é prisioneiro da “cotidianidade”: mantém o olhar fixo no horizonte, para a consolação, para a revelação da glória de Deus. Se o presente é sem sol, ele está seguro da aurora.

“O futuro é ilusão temperada na fé. Deste, nada se sabe e, no entanto, tudo se espera: o amor ávido, o bem-estar diletante, a irrupção final e feliz do ser que somos e não temos sido” (Frei Betto).

Advento é sempre tempo de redescobrir quem somos, o que queremos e para onde vamos.

A “mística da gravidez” perpassa todo este tempo, criando em nós uma atitude permanente de espera e fazendo-nos crer na força escondida da vida que continuamente está para nascer. Trata-se de um tempo que alimenta em nós o desejo e a esperança de um “novo parto” da salvação de Deus.

Deus quebrará seu silêncio, a noite escura será iluminada, a primavera substituirá o inverno.

O cristão guarda em si o fogo do Espírito Santo, que o mantém sempre vivo, forte, aberto ao futuro.

Ele não olha o passado; vê longe e sonha grande. Porque está aberto ao Espírito, não permanece especta-dor e passivo.

Podemos recordar a missão do sentinela, uma das figuras bem conhecidas na história do povo do A.T. Situado estrategicamente em lugares altos e de amplos horizontes, ele recebe a delicada missão de observar, vigiar, discernir e anunciar, para defender a vida do povo

Tal missão implica numa vigilância investigadora do horizonte, onde se fazem perceptíveis os “sinais”, ou até mesmo os indícios de que algo importante para a vida do povo está prestes a acontecer.

Mas não basta captar os sinais. O sentinela deve interpretá-los, quando não são claramente perceptíveis, no horizonte longínquo.

Por isso, o sentinela está treinado para “olhar” a grandes distâncias, para “olhar” com precisão. Seu “olhar” investigador, aguçado pelo amor ao povo e a fidelidade à missão, está em alerta permanente.

“Em meu posto de espreita, meu Senhor, estou firme ao longo do dia, e no meu posto de guarda, permaneço de pé noites inteiras” (Is 21,8).

O mais específico da função do sentinela é, portanto, a capacidade de “olhar” corretamente e de anunciar o que vê, sem se deixar enganar pelas aparências ou por qualquer tipo de engano, sempre em função da defesa daqueles que dependem da sua vigilante perspicácia.

Testemunha fiel, que não se deixa comprar nem subornar, o sentinela é a visibilização da Misericórdia de Javé para com o povo, em meio aos problemas e ameaças da sua história.

Esta atitude de permanente vigilância, de contínua conversão do olhar, é também constitutiva da vocação cristã. Jesus a descreve com uma parábola, na qual a lâmpada acesa é o símbolo do olhar transparente e vigilante que deve caracterizar seus seguidores chamados ao “banquete do Reino”.

Seguidores de Jesus, somos chamados a ser permanentemente, na Igreja e no mundo, sentinelas do Reino, capazes de discernir com lucidez e perspicácia as interpelações e os desafios que surgem no horizonte da história, e que podem ser ou “boa-nova” para o povo, ou “ameaça e atentado” à sua vida e dignidade.

Cada momento histórico tem os seus “sinais” que remetem a intervenções misericordiosas de Deus na história dos povos. Devemos, portanto, viver a contínua “conversão do olhar”, que nos permita enxergar e anunciar na arena da história, a presença das bem-aventuranças, a lógica maior do Reino de Deus, os sinais da misericórdia infinita do Pai.

A encruzilhada histórica que estamos vivendo parece pedir com mais urgência tal atitude.

Vigiar não significa, portanto, passividade; é ousar renascer, advir, vir-de-novo, recomeçar…

Nessa vigilância vislumbramos detalhes decisivos: a vivência da ternura, a reinvenção da vida em cada amanhecer, o criar asas e alçar vôo, o despertar de sonhos, a gratuidade amorosa, a alegria descontrolada…

Espera-se Jesus vivendo os valores que Ele encarnou: o cuidado dos pobres, a misericórdia aos faltosos, a tolerância para com o diferente, o pão de cada dia a todos, o coração dilatado à misteriosa presença do Amor…

“O difícil é esperar. Desespêro é fácil, e é a grande tentação” (Péguy).

Um canto de fé e de esperança segura: esse é o sentido da existência cristã.

Com essa espera de Deus, com essa esperança, o cristão pode dar sabor à sua vida, muitas vezes modesta e simples. Ter esperança é, essencialmente, busca incessante, luta por aquilo que não tem lugar agora, mas, acredita-se, terá um dia.

A esperança tem suas raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas. Nos pequenos gestos ela floresce e aponta para um sentido novo.

O Advento nos revela segredos futuros: no ponto final seremos todos acolhidos por Aquele que nos quer “eternos”. Porque Ele é “terno”. E disso temos saudades.

 

Textos bíblicos: Mc 13,33-37

 

Na oração:

– adote a atitude do sentinela, que vive alerta, atento, à escuta da Palavra de Deus.

– Deus continua vindo ao nosso mundo, encarnando-se na nossa história, pelo nosso “sim”. Nossa atitude fundamental diante de Deus deve ser a disponibilidade total e ativa.

– O orante deve estar sempre pronto para crer nas infinitas reservas do amor de Deus, na sua inesperada ternura e bondade. Sob o olhar de Deus vivemos uma contínua provocação da atenção, uma contínua surpresa.

 

Estar diante do “olhar de Deus” nos capacita para termos um olhar de discernimento.

* O que você está “vislumbrando” no seu horizonte pessoal, eclesial, social…?

* Em tempo de “crise” o seu olhar obscurece ou permanece cristalino?