Vontade de Deus

Vontade de Deus: jorro de vida no interior da pessoa

 

A oração inaciana não é um fim em si mesma; é meio para “buscar e encontrar” a Vontade de Deus.

Buscar expressa bem o dinamismo próprio da espiritualidade inaciana, ao serviço da “missão”.

Atitude de “êxodo”, saída de si, movimento para….

Encontrar revela a pretensão inaciana de ser eficaz. Os Exercícios Espirituais são “operantes”, não “alienantes”. S. Inácio espera que o exercitante se disponha, coopere com a Graça divina, esforçando-se por encontrar “o que tanto deseja”.

Portanto, nos E.E. deseja-se que o exercitante ordene os seus afetos, alcance uma atitude de indiferença diante das “coisas” e eleja a Vontade do Criador a seu respeito.

Não se trata de três metas paralelas e independentes, mas estão encadeadas entre si.

“Deus quer que eu decida livremente minha vida diante d’Ele”.

O maior obstáculo para “buscar e encontrar a Vontade de Deus”, segundo S. Inácio, não está fora de mim, mas em mim mesmo: são as “afeições desordenadas” que me tiram a liberdade interior.

A Vontade de Deus é, portanto, um tema capital da espiritualidade inaciana, e pode-se mesmo afirmar que o objetivo final dos Exercícios consiste em levar o exercitante a buscar, encontrar e abraçar a Vontade de Deus a seu respeito.

Mas, o que se entende por “Vontade de Deus?”

Podemos encontrar a inspiração em duas páginas da literatura universal:

  1. a) O discípulo perguntou

– “Que é que devo fazer para ser aceitável a Deus?”

 

Respondeu o Mestre: – “E como eu vou saber isso? Tua Bíblia diz que Abraão praticava a hospitalidade e que Deus estava com ele. Que a Elias lhe encantava orar e que Deus estava com ele. Que Davi governava um Reino e que Deus também estava com Ele”.

E o discípulo replicou: – “E tenho eu alguma forma de saber qual é a tarefa que foi concedida a mim realizar?”

– “Sim. Procura averiguar qual é a mais profunda inclinação de teu coração e segue-a”. (Montagne)

 

  1. b) – “Não há maior alegriadisse Francisco – do que obedecer à Vontade de Deus. Sabes por quê, irmão Leão?”

– “Como poderia saber? Explica-me”.

– “Porque no íntimo desejamos o que Deus quer. A única diferença é que ignoramos. O Senhor, então, desce em nós, desperta a nossa alma e mostra-lhe o que ela deseja sem saber. Eis o segredo, irmão.

 

Obedecer à Vontade de Deus significa obedecer à nossa própria vontade, a mais íntima e secreta.

No fundo do mais íntimo dos homens, estás vendo, dorme um servidor de Deus”. (Kazantzakis)

“A vontade de Deus é a nossa vontade mais íntima. Aquela que ignoramos”. (Kazantzakis)

Tradicionalmente, a Vontade de Deus é imaginada como algo externo ao sujeito, que ele precisa descobrir fora de si mesmo para, em seguida, colocar em prática.

As duas passagens acima citadas, sugerem, contudo, uma nova maneira de se conceber a Vontade de Deus.

Segundo esta, a Vontade de Deus não é algo externo ao sujeito; pelo contrário, a Vontade de Deus habita as entranhas do ser humano.

A Vontade de Deus é algo que Deus “plantou” no coração mesmo do ser humano.

Nesta linha de pensamento, a Vontade de Deus “…não é algo que venha do Afora e que seja, portanto, completamente extrínseco à pessoa, senão que necessariamente se insere no Adentro, no mundo interno e intrapsíquico…” (Montagne).

Se, por um lado, a Vontade de Deus é algo transcendente a nós e ao mundo, ela é ao mesmo tempo o mais interior de nós mesmos. É o que configura o sentido de nosso existir, como semente e promessa que expande o mais íntimo de nossa pessoa e do mundo.

“Fazer a Vontade de Deus” se revela como o veículo para chegar à Fonte mesmo de nosso ser, participando plenamente de seu jorro de vida.

A Vontade de Deus tem a ver, portanto, com o desejo do próprio sujeito.

Mais do que isso, a Vontade de Deus é o próprio desejo do sujeito. Por conseguinte, “… descobrir a Vontade de Deus não vem a ser algo, no fundo, muito distinto do descobrir o próprio desejo” (Montagne)

Não qualquer desejo, mas o desejo mais profundo, existencial, transcendente…

A Vontade de Deus não é algo exterior a mim, que ameaça esmagar-me; pelo contrário, ela é “essa Palavra que Deus diz sobre mim nas profundezas do meu ser”.

A Vontade de Deus faz brotar o que há de melhor em mim.

Pode-se, de fato, afirmar que Deus não decide, para cada ser humano, o seu modo específico de viver o seguimento de Jesus Cristo, mas entrega essa escolha à liberdade de cada um.

“… certamente não se tem que esperar que Deus faça sentir seu desejo a respeito da opção concreta a tomar, mas que tão somente faça sentir sua graça, seu amor e o dinamismo do Espírito para seguir a Jesus decididamente, o “magis”. O modo pelo qual se possa levar isto a termo corre por conta da decisão discernida do exercitante.

A eleição, a opção por um caminho ou outro é de cada pessoa. É seu risco, o da sua liberdade assumida como filho adulto do Pai.

Não teremos que pensar, portanto, em escutar uma mensagem ou uma voz que determine a particularidade concreta do caminho a seguir. Pensar desse modo nos situa num grave perigo: o de pretender escapar à própria responsabilidade e busca assumindo o risco de acertar ou equivocar-se” (Dominguez Morano).

Esse modo de ver as coisas está mais de acordo com a concepção cristã de Deus como Pai. Ora, um bom pai não decide pelo filho, mas respeita a sua liberdade e confia na sua responsabilidade.

Certamente, “Deus quer”, em todo momento, o que é melhor para cada um de nós. Seja qual for a decisão nossa, Ele estará conosco e nós poderemos ser felizes n’Ele e por Ele.

Nosso Pai Deus nos estimula para seguir o caminho assumido por seu Filho Jesus. Mas a via particular na qual tenhamos que levar a cabo esse seguimento é deixada a nós para que, desde nosso próprio risco e liberdade, a decidamos na leitura de nosso próprio sentir e desejo.

Seria de estranhar se Deus interferisse extraordinariamente, injetando consolação no aparelho psíquico do sujeito cada vez que Ele quisesse indicar-lhe a sua Vontade.

A consolação é um sentimento de plenitude, prazer, contentamento ou alegria. Como é sabido, tais sentimentos são respostas psíquicas à realização de desejos.

Mais exatamente, trata-se de uma resposta psíquica que brota das entranhas do sujeito e que sinaliza que o seu desejo mais radical, genuíno, verdadeiro, está sendo realizado.

A Vontade de Deus é, portanto, o desejo do ser humano, o seu desejo mais profundo e nobre.

E a consolação é uma resposta psíquica à realização desse desejo.

A ação de Deus sobre o ser humano não dispensa os mecanismos psicológicos próprios do modo humano de agir. Pelo contrário, a graça divina atua sobre o psiquismo humano, de forma que toda a estrutura psíquica do sujeito esteja implicada pela experiência religiosa.

Toda experiência de Deus acontece, necessariamente, através de mediações psicológicas.

A Graça divina não funciona independentemente e com exclusão das funções psíquicas do indivíduo. Em seu encontro com o ser humano, Deus atua sobre as potencialidades psíquicas humanas e através delas.

O que interessa à espiritualidade inaciana é o sentido religioso da moção, e esse sentido é determinado pela sua intencionalidade final (“o ser humano é criado para…”).

Assim, se uma moção tende a afastar a pessoa da Vontade de Deus, então, do ponto de vista espiritual, pode-se atribuí-la ao mau espírito – ainda que a sua origem causal seja psíquica.

Se, contudo, uma moção move o exercitante a abraçar o querer de Deus a seu respeito, então pode creditá-la ao bom espírito – embora a sua origem causal seja psicológica.

Em resumo: o critério para se reconhecer uma moção como do bom ou do mau espírito é “teleológico”, não “genealógico”. Uma moção é boa quando ajuda o exercitante a alcançar o fim para o qual ele foi criado, e é má quando o afasta desse plano divino.

Portanto, a Vontade de Deus não é algo já “programado” previamente, de maneira determinista. Nós vamos descobrindo essa Vontade paulatinamente, na atenção paciente aos seus sinais, na escuta da Palavra de Deus e dos irmãos de caminhada, no encontro íntimo com o Senhor, na vida discernida à luz da fé.

A Vontade de Deus é que respondamos livremente a seu Amor por nós, através de nossas opções.

É Vontade de Deus que exerçamos nossa liberdade de maneira responsável, elegendo o que honestamente nos parece ser o melhor modo de agir, no contexto em que vivemos. Na mão de nossa liberdade está a possibilidade de fazer um caminho, que só vamos conhecer olhando para nós mesmos.

A Vontade de Deus é algo dinâmico, mutável, às vezes temporário.

Deus, em si mesmo, é Absoluto, mas se manifesta a nós de maneira evolutiva. A nossa percepção da sua Vontade não é independente dos nossos próprios pensamentos, decisões e sentimentos.

Em outras palavras: a Vontade de Deus não se trata de um desígnio fixo, mas de um movimento, como um rio que busca o Oceano; o importante é que a água chegue ao mar; o percurso do rio ainda está por fazer. Por isso é necessário desbloquear tudo o que impede que a água corra, tudo o que atrapalha esta imersão que se converterá numa progressiva transformação da totalidade da pessoa.