Oração e Partilha

A Palavra lavra e semeia

 

“Anunciava-lhes a Palavra por meio de muitas parábolas…” (Mc 4,33)

 

“Nós somos palavras”. Temos respirado e respiramos palavras desde que nascemos. Basta abrir a boca que as palavras jorram. A nossa vida é um casamento com as palavras. Elas nos tocam e nos constituem. Nós somos as palavras que escutamos e aquelas que foram silenciadas, negadas ou omitidas dentro de nós.

Povos de todos os tempos e lugares sempre chamaram a atenção para o vínculo que existe entre as palavras e a vida.

Conhecemos expressões comuns que demonstram a força e o peso da palavra: “as tuas palavras me fizeram bem”, “me fizeram pensar”, “me feriram”, “me ajudaram a ver as coisas de maneira diferente”, “eu esperava essas palavras”, “eu precisava daquela palavra”, “nunca me esqueci das tuas palavras”, “agradeço pelo que você me disse”, “bastou-me aquela palavra”, “a tua palavra foi diferente”…

Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a uma pessoa é o de uma “palavra diferente”. O futuro de uma amizade rica e enriquecedora depende daquela palavra.

As palavras promovem a circulação dos pensamentos e sentimentos com os quais as pessoas revelam a si mesmas, se expõem e se propõem ao encontro, dando a cada uma a possibilidade de semear em outros aquilo em que ela crê e ama. Um “falar-semear” que é o sentido belo do viver.

A amizade, o amor e todos os sentimentos fortes, tem necessidade de palavras. Esta é a nossa vida.

Somos feitos para a comunhão, para unir as nossas vidas.

Sinceras ou falsas, pensadas ou espontâneas… são um de nossos maiores tesouros.

Todo encontro com o nosso semelhante revela a nossa relação com as palavras, as boas e as más, as que unem e as que dividem, as que consolam e as que amedrontam, as que curam e as que matam.

“Morte e vida estão em poder da língua” (Prov 18,21).

As palavras são feitas à nossa medida e adquirem vida quando as pronunciamos, convertendo-se assim em um prolongamento de nós mesmos, de nossos sentimentos e de nossos valores. As palavras são o reflexo de nosso viver e sentir, de nossas misérias e grandezas; são a “alma” de quem as pronuncia ou as escreve. Com elas não estamos sozinhos; com elas podemos transcender nossa pobre realidade.

As palavras adquirem a sua força vital no interior da relação dialogal, na singularidade de cada um, no seu ritmo, no seu tempo…

As palavras se desgastam quando nos afastamos do contato originário com a realidade, quando nos distanciamos dos acontecimentos que nos alcançam, quando renunciamos a sentir e saborear as coisas internamente, quando não nos deixamos afetar pelos matizes quase infinitos da dor de nosso próximo.

Falamos apenas das palavras ditas, mas não podemos nos esquecer daquelas comunicadas no silêncio da censura, da cobrança, da recriminação, da humilhação…

Ambivalentes como nós, palavras podem criar armadilhas ou abrir portas para largos horizontes, podem embalar ou derrubar, acolher ou matar dolorosamente como punhais. As palavras nos tornam deuses: com elas podemos fortalecer a vida ou asfixiá-la. Com as palavras podemos sacudir consciências, animar, levantar, entusiasmar, provocar ímpetos de se arriscar a viver até o fundo; ou podemos desanimar, sufocar, destruir, seduzir para fazer da vida um sucesso trivial e sem sentido.

Considerar o mistério escondido naquela palavra que saiu de nossa boca e de nosso coração de forma afirmativa, redentora… bendita. Quando assim conseguimos comportar com nossas palavras, estamos contribuindo, literalmente, para a “edificação humana” do outro. Com isso, estamos falando de um ser mais saudável, equilibrado, integrado em suas dimensões (psíquica, social, corpórea, espiritual).

É extraordinário perceber como as palavras ditas com ternura produzem efeitos benéficos para o ser humano. Principalmente nos primeiros anos de vida.

No evangelho que vamos contemplar, Marcos afirma que “Jesus anunciava a palavra usando muitas parábolas…); Lucas completa: “as pessoas ficavam admiradas com as palavras cheias de encanto que saíam da boca de Jesus”. Com exemplos tomados da experiência dos camponeses, Jesus desperta nas pessoas a esperança e o sentido da própria existência: o decisivo é semear a Palavra que abre novo futuro e que anima. “Palavra viva” que carrega dentro de si uma força transformadora que já não depende mais do semeador.

Com sua vida e sua palavra, Jesus interrompe o discurso dos especialistas sobre Deus. A surpresa, o desapontamento e o conflito que Jesus provocou, ensaiam cada dia novas palavras e novos gestos.

Seu ensinamento, cheio de “autoridade” introduz uma perspectiva nunca ouvida antes; apresenta uma alternativa que as pessoas mais simples do povo entendem como revelação do Pai aos pequeninos.

Formados e purificados pela própria Palavra no forno do silêncio, estaremos prontos para proferirmos palavras benditas, palavras que possuem um magnetismo especial, que libertam, acalentam, invocam emoções. Certas palavras nos acompanham durante muito tempo. Todos nos lembramos de palavras proferidas por pessoas especiais em momentos de dificuldade, que nos deram luz e força.

Como é importante para a pessoa ter escutado palavras portadoras de emoções, de auto-estima!

Para muitos místicos, as “palavras reveladas” são música. Eles as usam como quem toca um instrumento, porque elas são belas, pelo prazer que elas são e despertam no leitor-orante.

Fernando Pessoa diz que a poesia é uma rede de palavras por cujas fendas se ouve uma melodia que faz chorar. Todo dizer poético aspira por um silêncio de palavras, para que a música seja ouvida.

Podemos falar, então, do prazer do texto. O profeta Ezequiel “comeu” a Palavra e afirma: “eu comi e pareceu doce como o mel para o meu paladar”.

Como polpa de uma fruta madura na boca, basta provar o sabor da Palavra, antes mesmo de conhecer o seu misterioso sentido. É o Espírito que nos diz a “palavra” misteriosa.

Porque não sabemos o que dizer, na oração deixamos o Espírito gemer em nós com suspiros profundos.

 

Texto bíblico: Mt 12,46-50

 

Na oração: As palavras perdem força e criatividade quando não nascem do silêncio.

Percorrer as palavras proferidas, normalmente, ao longo do dia: são palavras que elevam? curam? animam? Palavras marcadas pela esperança? Palavras carregadas de sentido? Palavras criativas?

 

Todavia, se vosso temor procurardes somente a paz e o gozo do amor, então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis a eira do amor, para entrar no mundo sem estações, onde rireis, mas não todos vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas. O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio. O amor não possui e não se deixa possuir. Pois ele basta-se a si mesmo. Quando um de vós ama, que não diga: “Deus está no meu coração”, mas que diga antes: “Eu estou no coração de Deus.” E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso.

Gibran