A vontade de Deus

A vontade de Deus

 

“O nosso querer deve ser movido pelo querer que vem do alto”

(EE)

 

. Como conhecer a vontade de Deus?

. De quê falamos quando nos referimos à vontade de Deus?

 

A Vontade de Deus não pode ser um projeto existente fora de nós, ou à margem de nossa vida e de nosso mundo, e à qual deveríamos ir acomodando nossa vida e nossa ação, independentemente daquilo que somos ou do rumo dos acontecimentos.

Tal concepção ignora o fato de que nossa própria vida e nossa própria história estão já radicalmente marcadas pela iniciativa de Deus. E a iniciativa de Deus é manifestação de seu Amor.

Portanto, a busca e realização da Vontade de Deus há de levar sempre o selo da confiança, já que não nos encontramos diante de um Deus arbitrário que faz e desfaz, sem atenção à realidade de cada um de nós, mas diante de um Deus Pai-Mãe que nos criou.

Buscar a Vontade de Deus consiste, de algum modo, em buscar-nos a nós mesmos, isto é, o mais profundo e autêntico de nós, fruto da iniciativa criadora e amorosa do Senhor; trata-se daquele lugar e daquela direção profunda de nossa vida pessoal onde desvelamos a ação do Espírito que atua em nós. Nossos desejos encontram-se com os desejos de Deus.

Viver a partir de dentro: Deus habita no mais profundo de nós mesmos e realiza sua obra fazendo-nos nós mesmos, fazendo-nos pessoas únicas, originais, sagradas…

No mais profundo de cada pessoa habita o Espírito que, como “Senhor e doador da Vida” e como Criador, configura sua existência. Aqui se manifesta a ação personalizadora de Deus; este mesmo Deus nos individualiza de maneira totalmente original e irrepetível.

A Vontade de Deus é pois, sempre “personalizadora”.

Assim, quando tratamos de conhecê-la, sempre temos de prestar atenção ao nosso interior, onde atua o mesmo Deus cuja vontade buscamos, para comprovar se o que “parece” ser Vontade de Deus é mediação adequada para realizar em nós aquela plenitude que é a obra própria do Espírito.

“Deus, quanto mais quer dar, tanto mais faz desejar” (S. João da Cruz).

. Não há busca da Vontade de Deus sem interioridade ou capacidade de entrar dentro de si, sem prática de discernimento espiritual.

. A Vontade de Deus sobre nós que devemos buscar e encontrar não é uma realidade já escrita, fixa e pré-fabricada antes de nós e sem nós; ela não é uma coisa já pronta que somente deveremos descobrir, como se descobre um tesouro que alguém escondeu em nosso jardim; ela se encontra no dinamismo da vida, no seio de suas relações múltiplas e requer uma busca humilde, confiante e contínua.

. Deus não é o demiurgo onipotente que previu tudo, mas Aquele que ama os homens com Amor infinito.

. Bem longe de manipulá-las, Deus acompanha as pessoas em sua história, respeitando-lhes a liberdade e a responsabilidade própria.

. Não há “plano” de Deus e Ele não “dirige” o mundo a seu bel-prazer, uma vez que respeita muito a liberdade do homem; de fato, se Deus age, não age fora das leis do mundo e da sucessão de nossas ações humanas.

. Bem mais que isso, sua providência funda nossa autonomia. Ele está bastante presente para deixar que “sejamos nós mesmos”.

. O Deus Criador do homem não é seu rival, mas Aquele que lhe permite ser plenamente ele mesmo.

 

A Vontade de Deus é essencialmente de natureza dialogal.

A Vontade de Deus não está em competição com a do ser humano; ela não se apresenta de maneira despótica, coercitiva, alienante, impositiva. Deus não passa por cima da liberdade humana; dinamiza-a, a partir de dentro, em todos aqueles que se abrem à sua graça.

Ela favorece e respeita a liberdade humana com a qual entra em diálogo. A liberdade de Deus desperta a nossa liberdade. O exercício mesmo de nossa liberdade forma parte do plano divino.

Podemos dizer que nossa vontade fica incluída no “querer” de Deus.

Deus e o homem estão indissoluvelmente unidos.

A Vontade de Deus e a vontade do ser humano entram verdadeiramente em diálogo.

O Espírito se une a nosso espírito. “A fé é a reciprocidade de dois fiat, de dois sim, o encontro do amor descendente de Deus e do amor ascendente do homem. A voz de Deus é silenciosa, exerce uma pressão infinitamente leve, jamais irresistível” (Evdokimov)

A decisão tomada no discernimento espiritual se torna assim uma decisão conjunta, “conjugal”.

É o que expressa a Carta dos Apóstolos reunidos em Jerusalém, às Igrejas da Síria: “Pareceu bem ao Espírito e a nós nos vos impor outro peso…” (At 15,28).

Ao criar-nos livres, o sonho de Deus consiste em fazer-nos capazes de responder ao seu Amor.

Não se trata de uma vontade imperativa. No meio onde as pessoas se amam não se manda, manifesta-se um desejo ao outro. Podemos falar, então, de satisfazer o desejo de Deus.

Deus nos revela seu desejo de ver-nos plenamente humanos.

O Deus que nos criou sem pedir o nosso consentimento, nunca nos impõe missão alguma sem o nosso consentimento. Ele suscita nossos desejos, atrai, convida… mas respeita sempre nossa liberdade.

A Vontade de Deus é um Amor que nos atrai. A vontade de Deus supõe uma pessoa cheia de desejos e sempre em movimento, sempre em realização e maturação cada vez maior.

A Vontade de Deus toma forma na decisão da pessoa verdadeiramente livre. Ela será a vontade da pessoa, inspirada pelo puro Amor (Ame e faça o que quiser).

Nossas decisões serão tanto mais livres e fecundas, quanto mais unidos estivermos com Deus, quanto mais confiarmos na sua graça; mas elas tem que ser tomadas por nós.

A Vontade de Deus eu a descubro no momento mesmo em que, sintonizado aqui e agora com Ele, construo a minha vida segundo o que “eu quero e desejo”. Minha tarefa mais essencial como homem ou mulher não é encontrar um “objeto” (a Vontade de Deus em mim), para conformar-me a ele, mas um Sujeito, uma Pessoa, que desde sempre me ama e atua em mim e em torno a mim.

A Vontade de Deus vem de encontro à minha vontade (quando esta é oblativa), e reforça-a, intensifica-a… Trata-se de “deixar-me encontrar por Ele” e pôr-se a cooperar com Ele, que age em mim.

Fazer a Vontade de Deus é “fazer o que eu livremente quero e desejo”, enquanto me deixo abraçar por Ele. O discernimento torna-se espontâneo, intuitivo, brota do coração com naturalidade…

Reconheço que minha decisão se encontra com a Vontade de Deus quando posso afirmar que ela me faz mais livre, isto é, se traz à minha vida coerência e sentido, se ela unifica o meu passado e se abre um novo futuro.

Encontro meu caminho que eu mesmo traço, enquanto sigo de perto a pessoa de Jesus, que já está caminhando em minha vida e vai diante de mim, e enquanto me conformo (me identifico) a Ele o mais que posso, fazendo-me iluminar e aquecer por seu Espírito.

Não existe nenhuma senda já traçada diante de mim, e nem caminho que seja minha senda. Só existe o Senhor. Sua vontade sobre mim não a encontro fora de mim, mas em mim, no eu profundo.

Conformar-se, abandonar-se, aceitar, escolher a Vontade de Deus é conformar-se a Ele, abandonar-se a Ele, aceitar e escolher a Ele, sintonizar-se com Ele, que nos precede no caminho.

A Vontade de Deus é expressão do “gosto” de Deus. Buscar a Vontade de Deus é entrar em sintonia com o “gosto” de Deus e deixar-se mover pelo desejo de responder ao seu Amor.

Procurar a Vontade de Deus não é “adivinhar” o que Deus quer mas amar o que Deus ama.

O objetivo do discernimento não é descobrir os “segredos” escondidos de Deus, mas buscar o melhor para mim, aqui e agora.

Este modo de conceber a Vontade de Deus nos livra de todo fatalismo e de todo quietismo. Com efeito, a Vontade de Deus não está pronta, é “aberta”; não é algo que esteja escrito definitivamente em nenhum livro. Ela respeita nosso ritmo, a nossa situação atual, as circunstâncias que nos cercam… Ela vai se realizando na medida em que vamos crescendo, amadurecendo, multiplicando nossos dons…

A vontade ou o plano de Deus é que a pessoa se desenvolva na linha de seu autêntico ser e de sua identidade, através das situações que lhe cabe viver. É um caminho a inventar, não descobrir algo oculto. Por esta razão, a vontade de Deus vai se realizando cada dia.

Daí que, introduzir-se na exploração do querer divino é algo criativo, pois na gama imensa de situações continuamente mutáveis, há que se descobri qual é a opção que corresponde melhor ao que agrada a Deus. A busca da Vontade de Deus não é um mecanismo rápido de exploração, um trabalho isolado da vida pessoal e extrínseco a ela, senão tarefa intimamente vinculada ao ser da pessoa que busca e que, por conseguinte, se enraíza no curso de sua própria vida pessoal.

Não é um fato que se improvisa e que brota da superfície de si mesmo, senão do coração da existência.

A Vontade de Deus é que todos alcancem a plenitude humana de Cristo.

A Vontade de Deus em minha vida é a maneira como deixo que se realize em mim a figura de Cristo (configurar-se ao estilo, ao modo de viver, de amar e de ser de Cristo).